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sábado, 6 de abril de 2013

Resenha do livro Jogador nº1

Semana passada foi publicada mais uma de minhas resenhas no site do icultgen. O livro da vez foi o interessante Jogador nº1, de Ernest Cline, uma aventura distópica e saudosista (para quem viveu os anos 1980/70). As impressões do livro podem ser conferidas aqui.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Uma colcha de retalhos


A graphic novel Retalhos, de Craig Thompson - que li de uma tacada só - é mais do que simples leitura. É uma daquelas experiências visuais e literárias que te fazem embarcar em pura nostalgia com o mérito de levar à reflexão. Se você tiver convivido, por exemplo, um irmão com pouca diferença de idade, certamente vai relembrar vários momentos da infância com ele e das brincadeiras estúpidas protagonizadas na época - parte das memórias do próprio autor, cuja obra é autobiográfica. O mosaico de lembranças que Craig Thompson constrói com seu trabalho (como a metafórica manta confeccionada com retalhos de tecido que ele ganha de presente a certa altura da narrativa) descreve sua vida na infância e adolescência com todas as descobertas e dúvidas suscitadas em cada período. Evocam a importância que tiveram nas suas escolhas para a vida adulta. Parte importante dessa formação resulta do impacto que a religião teve na sua vida.
A primeira impressão que eu tive, ao ler o romance, foi a de que Craig procurou obter certa redenção do passado com sua obra, eliminando e procurando entender as sombras que o aprisionavam e ao seu talento, desde a infância até aos primeiros anos da adolescência. Um desabafo. Um basta. E uma explicação do como e do por quê. Não apenas para si mesmo.
 

Filho de pais protestantes e submetido a uma educação tradicionalista, Craig teve desde muito cedo, sua criatividade e talento para a arte solapadas pelo conservadorismo cristão da comunidade onde vivia. Essa repressão também estava presente em seus pais, contrastada com as constantes brincadeiras, nem sempre inocentes, protagonizadas com seu irmão na infância - o que é normal entre os meninos - e geralmente mal interpretadas. Em suas memórias, o garoto sonhador, curioso e altamente impressionável (toda criança é) se mostra geralmente frustrado pela falta de explicação para aquilo que não entende, bem como ameaçado pela fúria divina por causa das suas faltas. Os desenhos incipientes do futuro artista, acabam seguindo o mesmo caminho.
Com a pressão exercida pelo o que ele entende ser o mundanismo, o jovem, introspectivo e mal compreendido pelos colegas de escola, que não sabe se impor, se refugia na ideia de que esse não é o seu mundo. Em Certo ponto, Graig, pressionado pela religião, resolve queimar todos os seus desenhos e rascunhos, convencido que esses não agradam a Deus e que passara tempo demais fugindo da vontade Dele  - eu também cometi essa estupidez aos 23 anos, queimando um monte de livros e deixando para trás uma série de desenhos e rascunhos da década de 1980. Seu sacrifício selava um novo tempo de dedicação ao Reino de Deus.  Vale salientar que o autor registra de forma magistral a maneira como tal ideia lhe foi forçada através dos anos e imposta por pessoas que, bem intencionadas e movidas pela fé que professavam, viam no jovem uma ferramenta para as mãos de Deus.

Aconselham, afinal, que ele deve fazer um seminário para encontrar sua vocação.  E é aqui que vejo a maneira formidável como o autor descreve a sua escolha mais como resultado de uma imposição gradual, ainda que bem intencionada, daqueles que achavam o que era melhor para ele, do que pelo resultado de uma educação mais liberal que lhe desse o beneficio da dúvida. Os conflitos, no entanto, continuaram presentes através dos questionamentos relacionados com a fé que tencionava afirmar e a insatisfação com as explicações simplistas e conservadoras de seus tutores. Até que, no seminário, conhece Raina. Uma jovem  liberal e impulsiva - o seu oposto - que introduz vida e poesia à vida de Craig Thompson.
O traço lúdico e o simbolismo obscuro é irradiado de pureza e sensibilidade para retratar a epifania do seu encontro com a paixão. E a maneira como Craig revela essa etapa de sua vida é comovente. Seja pela ingenuidade das suas intenções e sentimentos para com Raina, cheios de pureza, seja pela maneira como eles vivem esse momento. O primeiro contato com a sensualidade perene. O primeiro beijo. A primeira contemplação do corpo feminino - tão angelicais e marcantes para o jovem Craig que, mais tarde, consegue capturar com a sua arte a riqueza e a pureza daquela experiência.
É simplesmente indescritível.
  
Retalhos é uma obra corajosa que não teme expor episódios desconcertantes da infância e adolescência de seu autor. Pode ser provocativa e constrangedora para alguns puristas e até para a sua própria família. Mas a sua força rompe barreiras e descreve a vida de muita gente enredada pelo tradicionalismo e repressão de instituições que proferem - embora, repito, com a melhor das intenções - uma filosofia de vida exclusivista, arrogante e antiquada. Alegando que além dos seus limites só existe pecado, caos e perdição. E não olham para o próprio umbigo.

 
A obra foi vencedora de três prêmios Harvey (melhor artista, melhor graphic novel original e melhor cartunista), dois prêmios Eisner (melhor graphic novel e melhor escritor/artista), e, em 2005,  do prêmio da crítica da Associação Francesa de Críticos e Jornalistas de Quadrinhos.

Retalhos
Craig Thompson
592 pág.
Quadrinhos na Cia.
   

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Menos é mais


É sábio e prudente analisar tudo o que for possível antes de atender as exigências que nos são impostas. É necessário ter calma e entender que nem tudo caminha ao mesmo tempo, no mesmo passo. Observar que a máquina da vida - trabalho, relacionamento e transações - possui camadas e engrenagens com seu tempo próprio.

O segredo é não fazer ou dizer o que vem primeiro à mente. Nosso primeiro pensamento pode ser - e quase sempre é - uma sombra disforme que precisa ser filtrada, processada, repensada. Um procedimento que deve anteceder nossas ações, que antes se dão na mente, depois no mundo real. 

É inutil permanecer num comportamento que não favorece o crescimento em qualquer área que se aplique.

Quase sempre, menos é mais. 


segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Devaneios de fim-de-ano

Faço-me essa pergunta: Qual é o sentido da vida?
O ser humano se assemelha a um autômato preso a um script previamente escrito pelo destino e do qual não pode escapar? Isso me faz pensar  na incapacidade de prever e de controlar o nosso futuro, embora gostemos de acariciar essa possibilidade. Admitimos constantemente  deter uma liberdade que, simplesmente, talvez realmente detenhamos. Atrelados a realidade que somos, insistimos atribuir nossas escolhas ao livre-arbítrio - característica humana que confere a liberdade de ser e agir. Em termos práticos eu defino quem sou constantemente, ainda que a minha vida seja uma consequência das escolhas de outrora e de eventos que não estão sob o meu controle. Não são as consequências que configuram quem eu sou. Mas a atitude que assumo diante delas, todos os dias. Isso me dá consistência e define quem eu sou, de fato. Um viva para a dignidade humana!

Até certo ponto esse pensamento está correto, mas não totalmente - e não discorrerei sobre isso aqui. Concordo que, no final das contas, é o pensamento que modela a nossa concepção de mundo - a percepção da realidade. Essa é uma mera construção interna, pessoal e pode não dizer respeito à verdadeira natureza das coisas. Não diz respeito aos agentes externos e as pressões do meio no qual estamos inseridos e que, até certo ponto, são capazes de nos moldar e determinar os rumos da nossa história.

Não é o que respeita a própria história da civilização. A dos nossos antepassados mais remotos, cujo passado, controlado pelo presente, pode não conter o selo da verdade, e pode ser apresentado sob sofismas jeitosamente estruturados para a satisfação e manutenção de governos e instituições poderosas com o intuito de dominar as massas. Quem pode provar o contrário? Quem controla o presente, controla o passado - 1984 de George Orwell.  Mas essa é apenas uma ligeira digressão, embora exemplifique o meu discurso...

A constante busca pela verdade, ao meu ver, faz parte do sentido da vida, que é experimento e evolução. Um evolução constante no conhecimento e na experiência da vida adquirida sobre si mesma. Sem saber ao certo o que vem a seguir, se é que algo existe do outro lado, o que importa é o desenvolvimento em todos os aspectos práticos e essenciais, principalmente na dádiva da caridade. Do amor ao próximo. A existência do outro concede valor à minha própria, atribuindo dessa forma, um sentido. A lição é simples. Mas de difícil compreensão e, obviamente, de assimilação.

E toda essa verborragia em plena virada de ano nada mais é do que o externar de um ser que procura encontrar o seu lugar para acalmar inquietação de sua alma.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

O risível

Vale a intenção?
Uma ajuda, meio que a esmo, com o risco de se expor ao ridículo. Ocorre-me que uma pessoa deseja ser considerada, reconhecida, lembrada, ainda que sem a consciência dessa pretensão, que somente chega com a consequência dessa atitude desinteressada. Seria a manifestação sutil de garantir a própria imortalidade? Creio que sim. Se ao menos a intenção for útil, alcançou seu objetivo, tomam-se os louros. Ponto para o ego. Se não, no caso da frustração, do alvo errado, daquela tentativa de surpreender alguém, mas que se dá absolutamente fora de certo contexto (o da coveniência, por exemplo), veste-se a capa do ridículo - bem mais ostensiva e duradoura que os louros.

O risível exaure, mingua e torna distante qualquer glória - de qualquer ato, por mais bem intencionado que seja. A sua lembrança depende da força que terá, da constância dessa boa intenção descabida, que pode ser, mais do que hábito, um vício. Um desejo de reconhecimento enrustido - por causa da insegurança, talvez -, mas cuja transcendência temporal, além de resultar numa existência medíocre, pode acabar numa imortalidade risível no mundo dos homens.

domingo, 22 de maio de 2011

Um domingo qualquer

Já fui criança. Quem não é já foi um dia, claro. Não sei qual era o jargão que usava todas as vezes que queria alguma coisa. Como eu passava a maior parte do dia com a minha mãe, acho que era o natural MANHÊÊÊ... Muitas vezes ouvia ela dizendo sarcasticamente, já enjoada de ouvir a mesma coisa o dia inteiro, que eu devia chamá-la pelo nome de algum doce. Afinal, as crianças adoram doces (e lógico, mãe e pai também).

Acordo por volta das 6h da manhã, noutro dia típico de domingo. Procuro levantar na frente do meu filho e da minha esposa para colocar os pensamentos em ordem e vou para meu pequeno escritório (que funciona meio como estúdio e sala de estar), enquanto navego pela internet e acesso o meu mailbox. Neste fim de semana trouxe trabalho extra para casa e utilizo essa janela de tempo, entre 6 e 8 horas da manhã, para definir o que fazer primeiro. Hoje não vai dar para sair com a família.
Estou diante do computador, aturdido em meio ao universo binário traduzido em forma de imagens e textos na minha tela, quando de repente irrompe pela porta do meu quarto um garotinho de 5 anos de idade com olhos meio murchos de quem acabou de acordar. Ele fica parado na entrada coçando a barriga e então solta um “ÔÔ PAAI...”. O pedido vem em seguida: “...faz chocolate pra mim?” . Lá vou eu pra cozinha preparar o chocolate (de quebra, já faço outro café pra mim também) enquanto ele vai vacilante para a sala ligar a TV.

Retorno para meus afazeres, numa tentativa de me concentrar e coloco uma música do Vangelis ao fundo, para inspirar . Meia hora depois meu filho aparece de novo: “ÔÔ PAAI (a cadência é mais ou menos essa), posso jogar Guerra nas Estrelas?” Ok, aqui cabe uma explicação: O pai é um fã de carteirinha dos icônicos personagens espaciais criados pelo George Lucas. E que coincidência, meu filho também é! Só que enquanto eu jogo títulos voltados para adultos como Star Wars Battlefront ou Republic Commando, meu pequeno padawan tem a sua própria versão do universo da Lucas Arts, o game Lego Star Wars; que, devo admitir, é um dos jogos mais divertidos que eu já tive o prazer de experimentar.

Estou novamente diante do computador, examinando o que servirá de base para a criação de novas estampas e procurando montar textos que se encaixem. Após me desejar um bom dia e depois uma boa conversa, minha esposa já está num vai e vem frenético, também com seus afazeres. Minutos depois, um som irrompe a melodia que enchia o ar: “ÔÔ PAAI... me ajuda?”. Lá vou eu, agora para tentar ajudar a salvar o bonequinho que o meu filho controla no jogo de algum 'buraco' onde ele o meteu ou resolver algum puzzle comum nesse tipo de game.


Dali a pouco ele desiste de jogar e vai brincar com seus brinquedos. Ouço meu filho fazendo o som de um motor de carro e o barulho do choque entre os carrinhos enquanto ele simula algum acidente exagerado que desafia as leis da gravidade. Só então vejo um gato passando correndo pelo corredor em frente à minha porta na direção de onde ele está. Fico somente aguardando. Alguns minutos depois o Daniel aparece: “ÔÔ PAAI, o gato não quer deixar eu brincar”. Dedé, nosso gato, é uma espécie de companheiro do meu filho. Ele é um filhote ainda, e adora brincar com tudo o que se move. Os carrinhos do Daniel são alguns dos seus brinquedos prediletos. Mas noto que ultimamente meu filho tem deixado o gato bem sem-vergonha com as suas brincadeiras de correr de um lado para o outro para se esconder dele, mergulhando atrás dos móveis. O Daniel fica parado, imóvel, com o Dedé olhando para ele sem mover um músculo mas em posição de ataque. Quando meu filho faz um movimento surpresa o gato corre saltitando até ele e os dois rolam no chão. Duas crianças numa brincadeira perigosa. Por causa disso, o gato já não pode mais ficar muito tempo dentro de casa. Quando o Daniel aparece no corredor engatinhando para lá e pra cá fazendo 'miau' vejo que é hora de dar uma volta com ele.
O dia está bonito, tem sol e o céu está com aquele belo tom azul típico dos dias de inverno. Levo meu filho para andar de bicicleta numa calçada próxima enquanto caminho a pé tentando acompanhá-lo. Quando voltamos já está quase na hora de almoçar, metade do dia se passou e eu não fiz nem a metade do que me programei para fazer. Talvez meu sobrinho possa passar a tarde lá em casa para brincar com o Daniel.
Do contrário, já sei o que me espera na outra metade do dia. E quer saber de uma coisa? Não consigo pensar como seria minha vida sem isso.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Visita ao Sótão

  Há cerca de uma semana atrás estive no sótão da antiga casa onde morava para buscar alguns objetos que acabaram ficando para trás na mudança de endereço que fiz no ano passado. Peguei de volta, entre outras coisas, minhas velhas agendas, companheiras que estiveram presentes em todos os anos que se passaram desde que comecei a fazer uso delas, em 1995. Além de fazer anotações relacionadas ao trabalho e aos compromissos corriqueiros, eu escrevia pensamentos e expressões diversas que manifestavam meu estado de espírito naqueles momentos. Havia também diversos extratos de autores que lia e que normalmente se associavam aos ideais que eu defendia. Por isso, essas agendas se tornaram verdadeiros diários, como verdadeiras cápsulas do tempo, para mim.

  Esta semana comecei a folhear um desses “diários”, aquele que mais me toca e que sempre me chamou mais a atenção. Uma agenda de 1996. Repassando as suas páginas reparei o quanto está repleta de planos e sonhos, cheia pensamentos e textos que representavam a minha filosofia de vida de então. Eu tinha 23 anos, na época. Deparei-me com uma pessoa de espírito determinado, de cosmovisão elástica e abrangente. Com reflexões tão profundas quanto às que tenho atualmente; muito embora eu não tivesse respostas para as diversas questões que me rodeavam (hoje, confesso que tenho mais perguntas do que respostas) isso não parecia me incomodar. O que importava era uma busca incessante de autoconhecimento e uma percepção mais clara desse mundo complexo, equipando-me, para isso, com uma visão de mundo otimista e romanesca. As anotações, em profusão, se expressavam sonhadoras, altivas por vezes, mas cheias de humanidade e fé, em Deus e em mim mesmo.
 
  Continuei lendo aquelas páginas até chegar ao mês de junho, onde as palavras começavam a diminuir de intensidade e força, até se tornarem pequenas notas marginais sem conteúdo em julho, e desaparecendo por completo em agosto. Daí em diante as páginas estavam todas em branco até o final da agenda. Nem mesmo as notas referentes a compromissos estavam presentes. Lembrei que o meio daquele ano fora o marco de uma mudança radical de filosofia de vida: Por causa do eu que julgava ser uma epifania deixei para trás todos os sonhos e planejamentos pelos quais trabalhava.

  Dez anos depois as ilusões se foram, junto com as suas promessas. Retomei a minha vida com certa dificuldade, resolvi rever velhos conceitos e me voltar para antigos sonhos. Alguns têm se realizado, embora que de uma estranha forma. A vida, afinal, é cheia de surpresas mesmo. Muitos outros estão adiante. Talvez eu ainda os alcance, talvez não...

  Hoje, não sei dizer se aquela mudança foi boa ou ruim, se guiei a minha vida ou se me deixei guiar pelos outros. Não sei dizer se fui uma folha verde presa ao galho de uma árvore ou uma folha seca levada pelo vento. Talvez o futuro possa trazer as respostas para essas novas questões.

  Todavia, extraordinário é como podem as palavras escritas por um jovem de 23 anos soar de maneira tão segura, madura e prática, e servir de conselho para ele mesmo 14 anos mais tarde. São pequenas gotas de sabedoria que ficaram gravadas para um futuro onde ele necessitaria reconstruir a sua própria identidade. O essencial não é em que condição se encontra a nossa realidade, mas como nós a percebemos. A mudança vital é sempre de dentro para fora. De certa forma, é o pensamento que molda nossa percepção de mundo e das coisas que nos cercam. Em certos momentos da vida faz-se necessário uma mudança de paradigmas.

  Parafraseando as palavras que um velho amigo vivia repetindo, e que eu anotara na agenda: “Somos viajantes neste mundo e, de vez em quando, necessitamos de uma parada para descanso. Lembremo-nos sempre, contudo, de sentar para descansar voltados para o que ainda falta prosseguir.”

  Afinal, a seta termodinâmica do tempo aponta apenas para uma direção.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Resgatando o romantismo

  Petrópolis é a minha cidade. Meu lar. Está privilegiadamente localizada em meio a Serra dos Órgãos sendo, por isso mesmo, dotada de uma beleza natural incomparável. Além dos atrativos turísticos – a cidade é herança de um sonho do Imperador Dom Pedro II -, conta com uma programação cultural bem variada: cinema, teatro, espetáculos de dança e música, exposições artísticas, sem contar com a gastronomia diversificada. A fundação de cultura e turismo do município mantém um site a programação cultural realizada a cada mês, bem como informações de serviços para turistas.
  Fiz uma breve visita a esse site no final do mês passado, procurando confirmar a data e o horário da “Serenata Imperial” que tem lugar no icônico Palácio de Cristal, na última quinta-feira de cada mês.

  Na quinta-feira, cheguei ao Palácio de Cristal pouco após as 20h; a serenata já estava começando. A banda era formada por seresteiros acompanhados pelo som dos violeiros, do cavaquinho, dos instrumentos de sopro e do pandeiro. O conjunto todo era conduzido por um animado coordenador que fazia também a introdução de cada composição que ia ser executada. No grupo composto principalmente por pessoas da meia-idade para cima, havia pelo menos quatros jovens que chamavam a atenção, e me despertaram a satisfação de ver que a juventude também se interessava pela boa música e demonstrava esse interesse no engajamento de um projeto tão especial. Projeto esse responsável por resgatar características tão fugidias da geração atual: o lirismo, a pureza da paixão proseada ou cantada em versos ora repletos de alegria, ora profundos na melancolia do amor não correspondido. O público estava representado principalmente pela terceira idade – uma boa parte eram turistas de Minas Gerais. A bela apresentação elevou-me acima dos problemas rotineiros, transferiu-me para algures e inundou-me de amor e paixão pela vida, trazendo à lume doces recordações que, ao serem revividas através das cantigas que enchiam o salão, recriavam as mesmas impressões da época.

  Lembrei-me, ainda com certo frescor, de ter participado do “Petrópolis em Serenata”. Um bairro vizinho foi visitado pelo evento e eu não pude deixar de ir, ainda mais convidado por um saudoso cliente e amigo. Na época, eu editava os convites. Meu cliente era um dos responsáveis pela realização do programa – que acontece até hoje –, privilegiando simultaneamente duas localidades da cidade por mês.

   Naquela noite, poetas, cantores, violeiros e o povo convidado, estavam reunidos no final da rua a partir da qual iniciaram as cantigas embaladas ao som dos instrumentos. Eu e minha esposa acompanhávamos o grupo que embalava canções dos compositores e intérpretes de saudosos anos que cobriam décadas do mais profundo lirismo. Tempo em que o romantismo era exalado nas ruas, diante das sacadas e janelas que se abriam ao som dos trovadores; no interior de bares e nas esquinas, em rebuscadas declarações de amor cheias de poesia e beleza. Compositores e intérpretes como Ari Barroso, Orestes Barbosa, Noel Rosa, Maisa, Vinícius de Moraes e muitos outros, eram homenageados. Enquanto soavam suas canções, entoadas pelos músicos numa passeata que crescia, descíamos a rua que terminava e dobrávamos a esquina para tomar um outro caminho, seguindo o itinerário pré-estabelecido. Aludindo aos poetas apaixonados, que se declaravam sob a sacada da janela de sua amada banhados pela luz do luar, frequentemente parávamos diante das casas, em canto, ao som dos violeiros. Atraídos para as sacadas e portões, os moradores se deliciavam com a melodia sentimental que enchia de enlevo aquela noite especial. Quando prosseguíamos nosso caminho, alguns desses moradores deixavam suas casas para seguir conosco. Ao final, quando terminamos de percorrer a rua derradeira, permanecemos na cantiga e a pedidos, outra e outra composição era executada, até que chegou a canção de despedida.

  Aquela, como essa noite de quinta-feira, foi para mim memorável e revigorante.

sábado, 31 de outubro de 2009

Uma menção da razão

  De vez em quando me pergunto quais teriam sido os pensamentos de meus antepassados quando tiveram a minha idade. Que desafios encontraram? Que dilemas? Qual era a concepção que eles tinham do mundo? O que os movia, além das responsabilidades com a família? No caso da vida dos meus pais, ainda posso investigar com perguntas feitas diretamente a eles - meu pai é um contador de “casos”. Mas quando penso em meus avôs e na minha descendência, tudo fica vago demais. Sei que parte do que foram está impresso no meu código genético. Uma herança hereditária. Mas suas experiências e memórias se perderam. Existem alguns raros registros fotográficos que não dizem muita coisa. Momentos congelados no tempo. Expressões que escondem um universo único de experiências e impressões. Correspondiam ao espírito da época, ou alguns estariam à frente do seu tempo? Que tipo de mensagem eles teriam deixado para as futuras gerações se seus pensamentos tivessem sido registrados?

  Há alguns meses atrás, minha esposa me perguntou por que escrevo para este blog. Tentei responder a sua pergunta argumentando que escrever sobre os assuntos que gosto é uma maneira de dividir com os outros um pouco daquilo que descubro sobre o mundo, e publicar no blog possibilita essa comunicação. Também é um meio de manter um registro temporal da minha própria cosmovisão que vai se transformando com o passar dos anos. Além disso, tenho mesmo o hábito de escrever compulsivamente sobre o que vivo e sinto.

  Faço um registro. Do meu tempo, das minhas impressões e das de outros. Para meu filho, para futuros netos, para a posteridade.

Talvez eu não queira passar pelo mundo sem deixar uma marca, um registro de quem sou. Considero a vida importante demais para permitir que seja apenas um lampejo e um ronco de trovão. Um dia, partiremos e levaremos com nossa memória tudo o que somos. Restarão algumas lembranças que se apagarão com o tempo, como as chamas de lampiões que se extinguem quando finda o combustível.

  Em Blade Runner – O Caçador de Androides, Hutger Hauer interpreta um androide chamado Roy. Ele é o líder dos replicantes (outro nome dado aos androides que são tão perfeitos que parecem humanos). Eles se rebelaram, sendo agora foragidos caçados pelo decadente blade runner Rick Deckard, interpretado por Harrison Ford, contratado para executá-los. Os replicantes foram projetados para expirar após um tempo de vida de 4 anos, uma medida da Corporação Tyrell, a fim de não desenvolverem emoções. O problema é que Roy volta à Terra buscando mais vida e o seu tempo está se esgotando.

  O momento mais tocante da película está na atitude de Roy ao poupar a vida de seu algoz, Deckard, que estava à sua mercê. Salvo, sob a chuva, o confuso e indefeso Deckard presencia a morte de Roy que recita um comovente solilóquio antes de morrer: “Eu vi coisas que vocês não acreditariam. Entrei em naves de ataque em chamas perto do ombro de Orion. Eu assisti à dança dos raios C no portão de Tannhauser. Agora todos esses momentos ficarão perdidos no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer.”


  A vida de Roy foi breve, mas pelo que podemos deduzir de suas palavras, foi uma vida intensa. Seu erro foi não dividi-la com ninguém. Ele eliminou as pessoas que poderiam ajuda-lo a encontrar um sentido para sua existência. Eldon Tyrell, seu criador, tentou socorrê-lo. Para Tyrell, não importava a quantidade de tempo de vida neste mundo, mas a qualidade da vida que se tem. No final, Roy encontrou sua redenção. Salvou Deckard e preservou nele aquilo que lhe era mais importante. Roy não pôde receber mais vida, mas podia preservá-la no outro.

  Não me importa se serei lido por muitos ou poucos - se é que serei lido. Importa-me a expressão na melhor forma que conheço, pela qual descubro e redescubro este e outros mundos: A palavra escrita.
Se consigo transmitir algo através das linhas que escrevo, espero que seja a expressão de um mundo maravilhoso, repleto de beleza e mistérios para os quais não temos respostas. Somos incitados a buscar mesmo sabendo que as respostas nunca serão plenas, e consequentemente nunca estaremos completamente satisfeitos. Mas ao compartilhar o que já alcançamos encontramos satisfação. Então, a arte e a poesia não estarão somente nos olhos de quem vê, mas naquilo que conseguimos fazer outros enxergarem.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

De janelas abertas para o céu


  Semana passada estava numa loja carregando o meu celular quando tive minha atenção desviada para um objeto meio incomum. Do outro lado da rua estava exposto um telescópio refletor. Pertencia a uma loja de ferragens que além de vender materiais de construção e outras coisas também parecia funcionar como um bazar.

  Uma rápida olhadela bastou para avaliar a precariedade do material: lentes mofadas, cheias de poeira e provavelmente desalinhadas, tubo internamente sujo e com sinais de ferrugem denunciavam que o equipamento deve ter ficado guardado em algum porão escuro por décadas. A única ocular que existia não estava em melhores condições. Acho que apenas o tripé de madeira se encontrava em estado mais favorável. O telescópio estava ajustado para mirar uma antena que distava alguns quilômetros e imaginei que o proprietário da loja tivesse deixado assim para impressionar um possível comprador. O conjunto gerava uma imagem meio borrada, mas tudo bem. Telescópios refletores não são ideais para observação de paisagem e para uso com luz do dia pois são ferramentas projetadas para perscrutar o céu noturno. Conversei com o proprietário sem noção que a permanência daquele telescópio na calçada à beira de uma estrada, sob o tempo e sem uma única proteção somente ampliaria os problemas que já existiam no equipamento. Acho que ele não me deu muito ouvidos. De qualquer forma, tive curiosidade de saber o preço. E essa foi a única coisa que me impressionou.

  Sai da loja relembrando os tempos em que subia no telhado da casa de meus pais com um telescópio refrator de 60 mm. Naquela época, os postes de iluminação pública se localizavam a cerca de 150 metros de distância da nossa casa e não haviam muitas residências nas proximidades. A baixa iluminação dos arredores proporcionava perfeita condição para contemplar o céu estrelado. Com uma carta estelar em mãos e movido por muita curiosidade, mirava o meu equipamento para planetas, aglomerados de estrelas e galáxias. Claro que meu telescópio era bem fraquinho e muita coisa se apresentava como disquinhos de luz ou manchinhas indefiníveis contra a escuridão, mas eu vibrava mesmo assim. Passava horas no telhado em pé, no frio muitas vezes, e me admirava continuamente com as descobertas de cada nova busca.

  Lembro que tinha um filtro solar para observar o Sol com segurança. Dava para ver pequenos pontinhos escuros em sua superfície, as famosas manchas solares (sua concentração muda de acordo com os períodos de alta ou baixa atividade do ciclo solar que é de 11 anos). Nunca tive a sorte de ver bolhas ou granulações, fáculas ao redor das manchas ou uma explosão solar. Na verdade, acho que não conseguiria ver esses fenômenos com aquele equipamento mesmo se as condições fossem favoráveis. Mas o sabor da descoberta de novos mundos, por mais obtusos que se revelassem enchiam meu ser de êxtase.

  Hoje não moro em um bom local para observar o céu. Locais ermos se encontram relativamente longe da minha casa, mas o desejo de adquirir um novo telescópio já me acompanha há anos. A minha sempre presente paixão pelo cosmo e a possibilidade de começar a acampar de vez em quando para fugir da rotina tem servido de impulso para finalmente ceder a esse desejo. No passado, pretendia fazer astronomia amadora (esse é um campo da ciência que tem feito muito com contribuições importantíssimas). Quem sabe, não seja um bom começo?

  Estou pesquisando preços, verificando modelos... Daqui a algum tempo devo voltar a falar sobre o assunto, mas da próxima vez espero, com o deslumbramento de estar descortinando os mistérios do céu noturno mais uma vez.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Dinossauros, gorilas e Miss Ann Darrow

  No final da semana passada fui a um sebo que reabriu há alguns meses atrás aqui na cidade, à procura do romance “Contato” de Carl Sagan. Aproveitei o momento para dar um terno abraço na saudosa proprietária do estabelecimento, uma querida senhora que desde meus tempos de adolescência guardava os livros e revistas que me interessavam e que não podia pagar no momento – tinha que juntar o dinheiro do lanche para comprar. Quando voltava para buscá-los, ela ainda me dava um desconto no preço.

   Não encontrei o livro que procurava, mas acabei adquirindo outro sobre um assunto que me apaixona desde criança: dinossauros. Escrito por Paul M. Barrett, paleontólogo do Museu de Historia Natural de Londres, o livro “Dinossauros - Uma Historia Natural”, publicado pela Martins Fontes, foi um verdadeiro achado – bem como o valor que paguei por ele. Além de conter informações das descobertas mais recentes da paleontologia, a obra é ricamente ilustrada e deixa qualquer interessado ou mesmo quem não dá a mínima para os bichões, boquiaberto. O autor também foi consultor da série “Parque Pré-Histórico”, documentário produzido pela BBC de Londres - DVD que ganhei de presente de aniversário este ano -, que foi transmitida em partes pelo programa “Fantástico”, da Rede Globo.

   Eu não saberia precisar quando e como surgiu o meu entusiasmo por essas maravilhosas criaturas extintas. O certo, é que desde criança faço parte da lista dos deslumbrados por esses animais. Acho que um dos primeiros contatos com essas criaturas fora através de um livro chamado “Monstros da Pré-História”, da Editora Abril, que era na verdade, uma compilação de uma obra ainda maior intitulada “Os Bichos”, lançada em quatro volumes no final da década de 1970. Tive o prazer de ter essa enciclopédia na estante, quando era mais jovem - gastei metade de um mês de salário do meu primeiro emprego para obtê-la. A obra tratava da vida animal e era cheia de ilustrações belíssimas feitas em aquarela. No quarto volume havia uma seção sobre os animais pré-históricos. Naquela época, os dinossauros ainda eram representados em posição ereta e com a cauda rente ao chão, como suporte, o que mais tarde, durante da década de 1980 descobriu-se estar anatomicamente errado. A cauda dessas criaturas era sustentada reta atrás do corpo, atuando como uma espécie de contrapeso. Apesar de não serem exatas, as ilustrações correspondiam à interpretação que os especialistas davam aos fósseis na época. Foi através de livros como esse que o portal das eras passadas se abriu para mim, resultando no despontar do meu interesse científico. Pude contemplar e até sonhar com o mundo dos dinossauros – sonhei literalmente com um braquiossauro pastando nas proximidades da minha casa.

  Embora tenha obtido uma boa dose de conhecimento sobre como era a vida no nosso planeta há milhões de anos atrás e aprendido, entre outras coisas, o significado da palavra “extinção”, a leitura que verdadeiramente definiu meu fascínio pelos dinossauros ocorreu algum tempo depois. Foi um livro de Edgar Wallace que levou minha imaginação até locais ainda não descobertos no globo onde teriam sobrevivido remanescentes desses répteis colossais. O livro, na verdade, surgiu do argumento para cinema que o autor deixou incompleto quando morreu em 1932, enquanto se dirigia para Hollywood: King Kong. O texto se transformou no filme dirigido por Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack que tirou o estúdio RKO do buraco – a película foi produzida durante a Grande Depressão, período obscuro da economia estadunidense. Seu lançamento, em 1933, foi um estrondoso sucesso de bilheteria e a história do gorila gigante que se apaixona por uma jovem e linda mulher ganhou o mundo desde então, tornando-se um clássico que atraiu e influenciou gerações. Gerando uma seqüência no mesmo ano (O filho de Kong), e dois remakes: uma produção meio erotizada de 1976 e outra espetacular, mas exagerada de 2005, dirigida por Peter Jackson.

   De fato, o livro não apenas me apresentou um mundo repleto de monstros – uma ilha, na verdade – mas foi também o primeiro livro que li do começo ao fim. Um feito grandioso para mim na época, embora não lembre quantos anos eu tinha. Posso dizer que, após aquela leitura peguei gosto pela coisa e nunca mais parei de ler. Naquela narrativa repleta de aventura, perigos e romance, recheada de criaturas gigantescas e bizarras, eu encontrava os ingredientes ideais para aflorar ainda mais a já fervilhante paixão pelos dinossauros. Embora fossem os coadjuvantes, eles eram tão espetaculares quanto o gorilão apaixonado - uma encenação de “a bela e a fera” em proporções titânicas. Muitas outras coisas me marcaram naquela leitura além dos dinossauros e de Kong: o Empire State Building, o arranha-céu onde Kong trava sua derradeira batalha com os aviões que o alvejam (seqüência imortalizada que se tornou um ícone pop); Nova York, a cidade que nunca dorme; e a belíssima Ann.

  Ann Darrow foi a primeira personagem feminina que me encantou e mexeu com a minha imaginação. Ainda me lembro da passagem, logo nas primeiras páginas, onde o incansável diretor de cinema Carl Denham deixa o cargueiro Venture em busca do rosto que viria a interpretar e dar vida à protagonista de seu filme. Ele segue convicto pelas ruas de Nova York, tentando descobrir nos rostos das mulheres que caminhavam pelas calçadas ou sentadas nos bancos das praças, a expressão ideal. Então, finalmente, num desses acontecimentos fortuitos, ele se depara com Miss Darrow.

  Tenho que admitir que Ann Darrow fora, para a minha mente adolescente e romântica, o estereótipo de mulher ideal. Assim como Denham se lançara em busca do rosto perfeito para o seu filme, fora plantado em mim o conceito da busca de uma companheira perfeita – uma idéia meio antiquada e platônica para a minha idade na época, eu confesso.

  Mas, num certo sentido, diferentemente dos dinossauros que hoje existem somente na forma de fósseis ou na minha imaginação, Ann é bem real. E da mesma maneira como o filme de Carl Denham não poderia existir sem Miss Darrow, a parte mais substancial do meu ser não poderia subsistir sem Ann.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Ontem, sob um novo olhar


  Comecei a trabalhar em computadores em meados de 1993. Como desenhista de prancheta, precisei passar por um pequeno período de adaptação. Lembro que após alguns meses e já dominando as ferramentas disponíveis em programas como Corel Draw e Photo Styler, todas as vezes que voltava para a prancheta e cometia algum erro, meus dedos chegavam a iniciar um movimento para acionar as teclas CTRL+Z. Esse é o atalho para desfazer operações mal-sucedidas nos programas com base em Windows. O engraçado é que isso era quase freqüente no início, tamanha minha inserção no mundo virtual. Obviamente, no mundo real o único recurso que tinha nesses momentos era bem menos prático: uma borracha aqui, uma raspada com o estilete ali...

  Acho que todos nós já pensamos pelo menos uma vez na vida, na possibilidade de voltar atrás no tempo para mudar uma decisão precipitada ou alguma palavra impensadamente proferida, dentre outras coisas, numa extensa lista. A idéia de poder desfazer nossos erros viajando ao passado é extremamente atraente. A possibilidade de desferir um CTRL+Z em certos momentos da nossa vida e simplesmente deletá-los do nosso histórico – como no Photoshop - bem como suas conseqüências, é pura ficção. Trata-se de um pensamento hipotético sem chances de ser realizado. Podemos lidar com os problemas do passado, mas não da maneira como gostaríamos.

  Esquecemos que se isso fosse possível, perderíamos ótimas chances de nos tornar pessoas melhores e jogaríamos fora uma das principais características da humanidade: a de aprender com os próprios erros e amadurecer. Declarações do tipo: “se fosse hoje faria de outro jeito”, ou “não devia ter dito aquilo”, são freqüentes e em muitos casos se transformam em pesados fardos que muitos carregamos dentro de nós, disfarçados da melhor forma possível. Pergunto-me se isso é mesmo necessário. Se não é melhor tomar uma posição positiva diante dos fatos, como comenta a autora Lya Luft em seu livro “Perdas e Ganhos”: “Na relativa lucidez da maturidade veremos que a maior parte desses “buracos” se tornam menos funestos quando se constata: “naquele momento, naquela circunstância, eu fiz o melhor que podia.” Quase sempre havia um motivo: filhos pequenos, problema do companheiro, real dificuldade em se afastar concretamente da casa ou da cidade, a pressão social ou familiar, havia... nem sempre coisas negativas. Apenas realidades com as quais se tentou lidar como se podia àquela altura”. E ela conclui: “Amadurecer serve para isso: o novo olhar, na lucidez de certo distanciamento, permite compreender aspectos nossos e alheios antes obscuros. Por vezes promove-se uma espécie de anistia. Partindo dela podem-se reconfigurar padrões.”

  Isso me leva a pensar em outro aspecto que devemos considerar, que é a nossa incapacidade de prever o futuro. Adaptamo-nos a novas realidades. As conseqüências daquilo que parece ruim no presente podem ser benéficas a médio e longo prazo no futuro. Como no caso de uma conhecida comerciante de roupas que perdeu seus investimentos e precisou vender as aquisições alcançadas após anos de trabalho árduo, para pagar as dividas. Em pouco tempo, mudou de uma vida na esfera da alta sociedade, de coquetéis glamorosos e viagens ao exterior para outra, onde depender de ônibus passou a ser a única maneira de se locomover. Um ano após esses eventos ela ainda revivia a situação, pensando que poderia ter agido de maneira diferente para evitar a falência. Mas apesar de ter passado por momentos difíceis, ela se adaptou e hoje não trocaria sua vida simples por nada. Investiu em talentos que estavam a sua disposição o tempo todo esperando apenas serem percebidos e utilizados. Se pudesse voltar ao passado, provavelmente não faria nada para mudar o curso dos acontecimentos que lhe trouxeram a presente realidade, pois encontra muito mais prazer na vida agora do que outrora.

  Difícil aceitar, mas se pararmos para analisar, concluiremos que passamos a maior parte do tempo no nosso passado ou futuro. Negligenciamos o presente por causa da nossa inabilidade para resolver situações que já ocorreram e que influenciam aquilo que somos e fazemos hoje, das quais parecemos não ter domínio. Ao mesmo tempo somos tomados pela tensão gerada pelas incertezas do futuro, antecipando um sofrimento desnecessário, fruto das preocupações que temos sobre fatos que muitas vezes tem uma probabilidade mínima de suceder.

  Fixar nossa atenção no presente pode nos levar a perceber que a realidade não é tão dura assim, que nossos problemas podem ser apenas uma questão de perspectiva. Podemos perceber novamente que a vida é uma dádiva de Deus da qual se deve tomar posse agora. Que os efeitos do passado são apenas sombras que podem se tornar um arco-íris de diferentes cores que refrigeram e revigoram ao invés de inquietar. Quanto ao futuro, um horizonte de infindáveis perspectivas e surpresas por se desdobrar.

  Certa vez, Martin Luther King declarou com propriedade: “Não estamos onde queremos estar, não estamos onde estaremos, mas certamente não estamos onde estávamos ontem.”

  E se nossa sensibilidade estiver aflorada perceberemos que nunca estivemos sozinhos.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Origens 1



  Existem pessoas que parecem não ter tido infância. Eu procuro refrescar a memória com a minha freqüentemente. Minhas lembranças da tenra idade pululam quando me sinto afetado por notícias como a filmagem de um novo episódio de Indiana Jones ou, mais recentemente, a nova versão de Jornada nas Estrelas para o cinema. Na verdade, desde criança, sempre tive uma inclinação para o que hoje chamamos de cultura pop.

  Lembro da primeira vez que fui ao cinema, levado pelo meu irmão mais velho, para assistir Superman – O Filme. Não demorou muito tempo para que, posteriormente, eu aparecesse com um “S” estampado no peito e uma capa - qualquer pedaço de pano servia, pois pra mim não fazia diferença- tentando voar por ai, sem sucesso. Qual será o marmanjo que, na sua infância, não fez isso? Aposto, contudo, que nem todos tentaram fazê-lo com a elegância do Cristopher Reeve.

  Quando o Império Contra-Ataca, o segundo episódio de Guerra nas Estrelas (que na verdade é o quinto) foi exibido nos cinemas, mais uma vez ali estava eu, em companhia do meu bendito irmão mais velho. A jornada de Luke Skywalker para aprender a arte Jedi não passou despercebida e também pensei ter aprendido algumas coisas com o mestre Yoda. Resolvi então transmitir para meus coleguinhas. Formei um grupinho de discípulos e, por mais que tentássemos utilizar a ”força”, não conseguíamos mover um grão de areia sequer. Quem viu Yoda tirar um X-Wing submerso do pântano, vai entender o que eu digo. Mas ao menos, tivemos nossos sabres de luz que, estranhamente, pareciam cabos de vassoura para os adultos.

  Também peguei fila para assistir E.T. O Extraterrestre, mas não chorei no final. Mais tarde, fiz um E.T. com um pote de Danoninho, afinal de contas, o pote era o formato do corpo dele, ou quase. Só faltavam a cabeça e os pés, já que o E.T. quase não tinha pernas.
  Isso me leva a pensar em como o mundo imaginário recriado nos filmes podem incentivar a criatividade. Seriados como Buck Rogers, Galáctica, Jornadas nas Estrelas – que eu assistia, mas não entendia nada- me levaram a montar miniaturas de espaçonaves. Trambolhões que na minha mente de criança eram parecidas com as originais. Mas havia pequenos detalhes nelas que eram, digamos, essenciais. Esses não podiam faltar. A estranha forma da Millennium Falcon ou o formato de prato duralex onde ficava a ponte de comando da Enterprise. Além das miniaturas, cockipts de naves espaciais em tamanho real, tinham direito a cadeiras para navegadores de bordo e tudo.

  Aliás, falar em pratos me faz lembrar uma promoção feita pelo Claybom Cremoso - a margarina da menininha do “Nhac!” - que trocava um prato branco de vidro por certa quantidade (o número não lembro) de tampas dos potes. No meu bairro foi uma febre. A garotada revirava o lixo atrás das tais tampas. Eu, como grande conhecedor dos principais lixões da minha rua, não fiquei de fora. Minha mãe, que não sabia de onde saiam tantas tampas de claybom, ficava com o sorriso estampado no rosto. Mas essa história fica para outro post.

Reflexões de uma noite sem lua




  Vivemos em um mundo agitado. Tendenciosamente apelativo, o contexto do mundo em que vivemos é capaz de nos levar gradativamente para longe das coisas essencialmente importantes, se não estivermos em constante vigilância. Podemos afirmar que o sistema ao nosso redor procura incessantemente fazer-nos esquecer que existe um Deus que nos ama e se preocupa conosco. Distancia-nos das belezas admiráveis de um mundo que nos rodeia a todo o tempo, procurando incansávelmente chamar a atenção. Como pontuou o meu vizinho numa breve conversa quando voltávamos do trabalho: “Quando era menino, subia no telhado de casa para ficar admirando noites como essa.”- disse, fitando a lua cheia despontando no horizonte. Concordei, pensando que até alguns anos atrás fazia o mesmo. Mas agora, atolado de trabalho e responsabilidades havia perdido o hábito completamente.

  Imagino que experiências simples como apreciar a Via-Láctea estendendo seu manto no céu sem lua, o planar de um gavião na paisagem ou a intrincada teia de galhos das copas das árvores, fazem parte de um momento efêmero na vida da maioria das pessoas, graças ao patrocínio de um cotidiano nervoso e agitado. Com urgências que nunca terminam e uma profusão interminável, onde quase tudo tem vida curta e a atualização e o ritmo não param. De fato, numa sociedade cada vez mais exigente e doadora de desejáveis confortos promovidos pela sofisticação, o comodismo chega por osmose. O que se ganha, na verdade, não se compara com o que se perde e os excessos destituem a vida de sentido. A mente desprovida de profunda reflexão no universo e na sabedoria natural distancia o homem de Deus e de seu semelhante.

  Aqueles que apenas empanzinam seu ego possuem vidas que começam e terminam em si mesmos. Parecem se esquecer do sentido de sua existência, envoltos em suas casas bem aconchegantes, seus automóveis e aparelhos sofisticados. Cercados de todo o conforto em um ambiente personalizável. Bem parecidos com aquele homem rico, parafraseado por Brenan Manning, “que teve uma colheita de altíssima produtividade e fez provisões para uma ainda maior no ano seguinte. Ele disse a si mesmo: “Rapaz, você é um cara fantástico. Trabalhou duro, fez por merecer tudo o que veio até você e encheu sua cesta de ovos para o futuro. Agora, pegue, coma à vontade, beba até cair e aproveite a vida”. Naquela mesma noite, Deus abalou o senso de segurança dele: “Tolo! Esta mesma noite a sua alma será exigida de você; e todo esse seu patrimônio, quem desfrutará dele agora?””.

  Olhar para a grandiosidade da criação é desconcertante, leva-nos a olhar atenciosamente para nós mesmos e a levantar as mesmas perguntas. Qual será a razão de tudo isso? Qual é o sentido da vida?
Se Deus existe, Ele nos chama para uma vida plena onde a razão da nossa existência se encontra Nele. Portanto, voltando-nos para o Criador de todas as coisas descobrimos que podemos escolher muitas coisas na vida: carreira, cônjuge, passatempos, entre outras. Contudo, não podemos escolher nosso propósito, a razão de existirmos.

  O propósito da nossa vida cabe num outro propósito muito maior que Deus planejou para a eternidade. É isso o que devemos buscar. É o que descubro ao contemplar a imensidão do cosmos. Diferentemente do que podem expressar alguns pensadores, encontro a minha importância quando me deparo com minha aparente insignificância, pois posso admirar um universo que parece existir para causar uma mistura de prazer, respeito e estupefação em mim.