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sábado, 25 de maio de 2013

Astronauta Magnetar, por Danilo Beyruth

Astronauta Magnetar é o primeiro trabalho publicado pelo selo Graphic MSP que promete trazer - e revelar - grandes talentos dos quadrinhos nacionais, com versões inéditas dos já consagrados personagens do Mauricio de Souza. Esse primeiro do Astronauta, por Danilo Beyruth, é uma prova de como deu certo a experiência com as publicações do MSP + 50 Artistas - HQs que reúnem inúmeros quadrinistas convidados para desenvolver suas próprias versões dos personagens do Maurício. A proposta do selo Graphics MSP é continuar a experiência, para deleite dos amantes dos quadrinhos, com histórias mais longas, menos experimentais e direcionadas para um publico diverso. 

O argumento de Astronauta Magnetar focaliza a solidão do personagem na imensidão do cosmo e a arte enfatiza essa condição de maneira bem criativa. Eu me encantei com o estilo de Danilo Beyruth (a sequência que mostra a rotina do Astronauta é genial) e a paleta de cores escolhida para compor o universo criado para o álbum. 

Pena que a experiência proporcionada pela graphic novel seja tão curta, visto que a brevidade do roteiro de poucos diálogos deixa um gostinho de quero mais. Mas talvez isso seja um ponto a favor da obra que se propõe a primeira de uma série. Que venham as próximas. 






sábado, 20 de abril de 2013

O Espião, de Clive Cussler

Atendendo ao convite dos amigos do icultgen, escrevi as minhas impressões sobre o livro O Espião, de Clive Cussler, que foi publicado no blog Fotos e Livros. O romance, uma elegante trama envolvendo uma caso de espionagem industrial no início do século XX, foi publicado pela editora Novo Conceito. Confira aqui.





sábado, 6 de abril de 2013

Resenha do livro Jogador nº1

Semana passada foi publicada mais uma de minhas resenhas no site do icultgen. O livro da vez foi o interessante Jogador nº1, de Ernest Cline, uma aventura distópica e saudosista (para quem viveu os anos 1980/70). As impressões do livro podem ser conferidas aqui.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Apocalipse Z, de Manel Loureiro


Eu não era muito interessado por essa onda zumbi que tem impregnado as sua vertentes na cultura pop nas últimas décadas. Ultimamente, porém, acompanho a série de tevê The Walking Dead - originária da HQ homônima e que iniciou, esta semana, a segunda parte da sua 3ª temporada (que é exibida no Brasil pelo canal FOX). Li também o livro Apocalipse Zumbi, escrito por Alexandre Callari, o primeiro desse gênero na literatura brasileira .
 
Antes do livro do Callari, contudo, eu já tinha sido fisgado, por pura curiosidade, pela boa surpresa que foi a leitura de Apocalipse Z - O Princípio do Fim, escrita pelo espanhol Manel Loureiro, em 2007. Acompanhei o desafortunado advogado, não nomeado pelo autor, que é o protagonista sobrevivente dessa aventura bizarra e escatológica que acontece em meio a um caos apocalíptico infestado de não mortos. A narrativa, em terceira pessoa, credita um tom de realismo aos acontecimentos que começam com notas pessoais postadas em um blog e terminam com apontamentos num diário - sobre rotina do advogado e de um incidente radioativo no Cáucaso que rapidamente toma conta dos noticiários e gera desinformação, como uma tentativa do governo de encobrir um acontecimento mais grave. O registro em estilo ágil, mantém o mistério, inicialmente, e a adrenalina aos picos do início ao fim, com os acontecimentos descritos totalmente através da perspectiva do personagem. No meio da aventura, outros sobreviventes nos são apresentados, alguns deles capazes de fazer qualquer coisa para sobreviver.

Manel Loureiro é jornalista e começou a postar o texto em um blog na internet, que, após receber um número cada vez maior de acessos, virou um fenômeno no país. O sucesso foi tão grande que acabou originando o livro, que rapidamente se tornou um best-seller e gerou duas continuações. Em Apocalipse Z - Os Dias Escuros, o autor dá continuidade à jornada dos heróis que sobreviveram aos angustiantes acontecimentos da narrativa anterior. Dessa vez, procuram um refúgio para recomeçar as suas vidas. Contudo, ao chegar no lugar que julgam ser um dos últimos pontos de resistência e refugo, percebem que os sobreviventes estão à beira de uma guerra civil e que a segurança almejada é mais tênue do que parece. Como se esse conflito emergente não bastasse, a ameaça zumbi que parecia distante está mais próxima do que nunca.
 
No terceiro e último livro da série, Apocalipse Z - A Ira dos Justos, nossos amigos precisam enfrentar o maior de todos os inimigos: a própria infecção. Em mais uma narrativa envolvente e cheia de reviravoltas, o autor costura uma empolgante trama que compensa o anticlímax da história anterior ao criar um vilão paradoxalmente carismático e cruel, que será o cerne de uma disputa de poder que acarretará no desfecho tenso e apoteótico da trilogia.
 
A saga escrita por Manel Loureiro é de linguagem simples, de leitura fácil e envolvente, que merece menção entre as inúmeras obras do gênero que tem povoado a literatura, o cinema e a tevê.

Os livros foram publicados pela editora Planeta e possuem 365, 320 e 400 páginas, respectivamente.

 

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O Deus (in)visível, de Philip Yancey

Philip Yancey é um dos meus autores prediletos. Aprecio o seu estilo franco e questionador. Admiro, principalmente, o seu esforço para explorar e responder questões polêmicas que envolvem a fé cristã e que são, normalmente, evitadas por alguns líderes religiosos que preferem dar respostas insatisfatórias ou sair pela tangente, sem querer admitir a falibilidade de certos conceitos.
 
Neste livro Yancey procura traçar as bases de um verdadeiro relacionamento com Deus, pela fé. Escreve, principalmente, para aqueles que gradualmente a perdem - diluída nas dificuldades da vida e na crescente onda de dúvidas carentes de respostas.  Pessoas que descrevem seu relacionamento como uma problemática e  constantemente insatisfatório. O autor discorre sobre os diferentes aspectos de se relacionar com um Deus amoroso e invisível. Discursa sobre as diferentes formas de atuação divina na vida das pessoas. Escreve sobre as expectativas do crente e a decepção de muitos que não enxergam, em meio ao sofrimento, a mesma ação divina, por exemplo, descrita nas promessas dos Salmos. Pessoas que tentaram encontrar no mundo atual os mesmos sinais da presença de Deus encontrados nas Escrituras.
 
Como sempre, Yancey se vale de citações bíblicas e de frases de pensadores cristãos - e também daqueles de vertentes não-cristãs. Discorre sobre as próprias experiências de sucesso e fracasso na fé que exercita e das de outras pessoas também - algumas delas grandes nomes do ativismo cristão.
 
Tece argumentos para responder as questões que ameaçam a fé individual em um Deus pessoal que deseja ardentemente o relacionamento, mas é paradoxalmente invisível e estranhamente ausente.

O livro é meio longo, mas é mais uma grande obra do mesmo autor de Rumores de Outro Mundo e A Bíblia que Jesus Lia, que considero os melhores livros do Yancey que tive oportunidade de ler.

O Deus (in)visível
Philip Yancey
288 pág.
Editora Vida

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Coisas Frágeis


Coisas Frágeis, publicado pela editora Conrad em dois tomos (lá fora foi publicado num único volume), é uma antologia de diferentes contos e poemas escritos por Neil Gaiman. O primeiro conto, de nome revelador - Um Estudo em Esmeralda -, é uma curiosa conciliação de universos completamente opostos, feita por sugestão de terceiros, baseada nos universos criados pelos clássicos escritores de literatura fantástica Arthur Conan Doyle e H.P. Lovecraft (ou o racional e o irracional). Dois grandes autores da literatura detetivesca, de mistério e terror. O resultado, para a surpresa do próprio Gaiman, foi uma narrativa espetacular com um final surpreendente (detentora do Prêmio Hugo de 2004 de melhor conto).

Outro grande destaque deste tomo é O Monarca do Vale, que carrega uma atmosfera misteriosa de mitologia picaresca, protagonizada por Shadow, personagem desenvolvido por ele em Deuses Americanos, romance publicado em 2002. Aqui, Gaiman utiliza argumento e personagens do filme Beowulf, dirigido em 2007 por Robert Zemeckis, cujo roteiro foi uma pareceria entre Roger Avary e o próprio Neil Gaiman. Nesse conto eles aparecem numa versão bem diferente e interessante.

Embora tenha levado algum tempo para ler o primeiro livro - em parte por causa do pouco cuidado da Conrad com a diagramação e escolha da tipologia -, acabei por devorar rapidamente a segunda parte. Nesse segundo tomo, que além de contos possui prosa e poesia, o autor continua a desfilar misteriosos mundos, ora perturbadores, ora fascinantes. Para aqueles que gostam de lendas urbanas ou de estórias de fantasmas, tais como aquelas narrativas inquietantes ao redor de uma fogueira de campamento no meio da noite, essa antologia é um prato cheio. Da fantasiosa Noivas Proibidas dos Escravos Sem Rosto na Casa Secreta do Temível Desejo e Instruções, aos enigmáticos e fantasmagóricos Quem Alimenta Quem Come e Pó Amargo, Neil Gaiman tece contos de realismo fantástico e se prova um dos maiores expoentes da literatura fantástica dessa geração, conseguindo surpreender ou chocar.

Coisas Frágeis / Coisas Frágeis 2
NeilGaiman
205 pág. / 166 pág. (respectivamente)
Conrad


domingo, 6 de janeiro de 2013

Uma colcha de retalhos


A graphic novel Retalhos, de Craig Thompson - que li de uma tacada só - é mais do que simples leitura. É uma daquelas experiências visuais e literárias que te fazem embarcar em pura nostalgia com o mérito de levar à reflexão. Se você tiver convivido, por exemplo, um irmão com pouca diferença de idade, certamente vai relembrar vários momentos da infância com ele e das brincadeiras estúpidas protagonizadas na época - parte das memórias do próprio autor, cuja obra é autobiográfica. O mosaico de lembranças que Craig Thompson constrói com seu trabalho (como a metafórica manta confeccionada com retalhos de tecido que ele ganha de presente a certa altura da narrativa) descreve sua vida na infância e adolescência com todas as descobertas e dúvidas suscitadas em cada período. Evocam a importância que tiveram nas suas escolhas para a vida adulta. Parte importante dessa formação resulta do impacto que a religião teve na sua vida.
A primeira impressão que eu tive, ao ler o romance, foi a de que Craig procurou obter certa redenção do passado com sua obra, eliminando e procurando entender as sombras que o aprisionavam e ao seu talento, desde a infância até aos primeiros anos da adolescência. Um desabafo. Um basta. E uma explicação do como e do por quê. Não apenas para si mesmo.
 

Filho de pais protestantes e submetido a uma educação tradicionalista, Craig teve desde muito cedo, sua criatividade e talento para a arte solapadas pelo conservadorismo cristão da comunidade onde vivia. Essa repressão também estava presente em seus pais, contrastada com as constantes brincadeiras, nem sempre inocentes, protagonizadas com seu irmão na infância - o que é normal entre os meninos - e geralmente mal interpretadas. Em suas memórias, o garoto sonhador, curioso e altamente impressionável (toda criança é) se mostra geralmente frustrado pela falta de explicação para aquilo que não entende, bem como ameaçado pela fúria divina por causa das suas faltas. Os desenhos incipientes do futuro artista, acabam seguindo o mesmo caminho.
Com a pressão exercida pelo o que ele entende ser o mundanismo, o jovem, introspectivo e mal compreendido pelos colegas de escola, que não sabe se impor, se refugia na ideia de que esse não é o seu mundo. Em Certo ponto, Graig, pressionado pela religião, resolve queimar todos os seus desenhos e rascunhos, convencido que esses não agradam a Deus e que passara tempo demais fugindo da vontade Dele  - eu também cometi essa estupidez aos 23 anos, queimando um monte de livros e deixando para trás uma série de desenhos e rascunhos da década de 1980. Seu sacrifício selava um novo tempo de dedicação ao Reino de Deus.  Vale salientar que o autor registra de forma magistral a maneira como tal ideia lhe foi forçada através dos anos e imposta por pessoas que, bem intencionadas e movidas pela fé que professavam, viam no jovem uma ferramenta para as mãos de Deus.

Aconselham, afinal, que ele deve fazer um seminário para encontrar sua vocação.  E é aqui que vejo a maneira formidável como o autor descreve a sua escolha mais como resultado de uma imposição gradual, ainda que bem intencionada, daqueles que achavam o que era melhor para ele, do que pelo resultado de uma educação mais liberal que lhe desse o beneficio da dúvida. Os conflitos, no entanto, continuaram presentes através dos questionamentos relacionados com a fé que tencionava afirmar e a insatisfação com as explicações simplistas e conservadoras de seus tutores. Até que, no seminário, conhece Raina. Uma jovem  liberal e impulsiva - o seu oposto - que introduz vida e poesia à vida de Craig Thompson.
O traço lúdico e o simbolismo obscuro é irradiado de pureza e sensibilidade para retratar a epifania do seu encontro com a paixão. E a maneira como Craig revela essa etapa de sua vida é comovente. Seja pela ingenuidade das suas intenções e sentimentos para com Raina, cheios de pureza, seja pela maneira como eles vivem esse momento. O primeiro contato com a sensualidade perene. O primeiro beijo. A primeira contemplação do corpo feminino - tão angelicais e marcantes para o jovem Craig que, mais tarde, consegue capturar com a sua arte a riqueza e a pureza daquela experiência.
É simplesmente indescritível.
  
Retalhos é uma obra corajosa que não teme expor episódios desconcertantes da infância e adolescência de seu autor. Pode ser provocativa e constrangedora para alguns puristas e até para a sua própria família. Mas a sua força rompe barreiras e descreve a vida de muita gente enredada pelo tradicionalismo e repressão de instituições que proferem - embora, repito, com a melhor das intenções - uma filosofia de vida exclusivista, arrogante e antiquada. Alegando que além dos seus limites só existe pecado, caos e perdição. E não olham para o próprio umbigo.

 
A obra foi vencedora de três prêmios Harvey (melhor artista, melhor graphic novel original e melhor cartunista), dois prêmios Eisner (melhor graphic novel e melhor escritor/artista), e, em 2005,  do prêmio da crítica da Associação Francesa de Críticos e Jornalistas de Quadrinhos.

Retalhos
Craig Thompson
592 pág.
Quadrinhos na Cia.
   

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Mais resenhas no icultgen

Outras duas resenhas que escrevi foram publicadas no site icultgen. Agradeço mais uma vez aos desenvolvedores do site a oportunidade, bem como os livros que me enviaram.
Para acessar as resenhas no site, clique nas imagens abaixo:


Teoria pouco convincente


Ao ver, numa livraria, a capa do livro O Sinal - O Santo Sudário e o Segredo da Ressurreição, de Thomas de Wesselow, devo dizer que o título me chamou a atenção de imediato. Logo minha ponta de interesse foi solapada ao imaginar que a obra provavelmente devia ser fruto de mais um fanático religioso ou aspirante de teorias absurdas sobre o controverso Sudário de Turim. Certamente, eu passaria muito longe desse livro, não fosse o preço mais que convidativo de uma recente promoção na Submarino e uma breve pesquisa sobre o seu autor e o escopo da obra. Para a minha surpresa, Wesselow não é um religioso mas um historiador de arte. Eliminei a primeira razão para não adquirir o livro, citada acima - capaz de desviar o meu interesse. Agora faltava descobrir se a minha segunda razão tinha fundamento ou se o autor apresentaria algum argumento verdadeiramente fenomenal para fazer valer o subtítulo pretencioso.

Okay. Dei uma chance ao livro e encarei suas quase 400 páginas com curiosidade.
O Sudário de Turim foi desacreditado pela comunidade científica após ter sido exposto a uma série de exames empíricos. Para muitos, trata-se de uma pintura engenhosamente produzida entre os séculos XIII e XIV - essa última, época oficial de sua primeira aparição pública em Troyes, pequeno povoado na França . O pano, contudo, é um artefato inacreditável. Nele, nota-se nitidamente, à distância de uns 2 metros, várias manchas amareladas e difusas que, descolorindo o linho, formam a imagem fantasmagórica de um homem nu - frente e costas. Sua posição, de recém sepultado, é anatomicamente surpreendente. Mas o que ressalta antes de mais nada a surrada peça são as manchas vermelhas que se fazem ostensivas nas mãos e braços, pés, cabeça, costas e uma estranha mancha do lado direito o peito. Mãos e pés parecem perfurados. As marcas nas costas sugerem dilaceramento da pele. Chibatadas. Sinais que lembram imediatamente uma das práticas da pena capital romana infligidas a criminosos e inimigos do Império, há 2.000 anos atrás, a  crucificação. Ainda que não historicamente, o único personagem conhecido que corresponde exatamente as características de flagelo da impressão do Sudário é Jesus. O judeu que teria sido coroado com uma coroa de espinhos, morto crucificado, perfurado no lado por uma lança romana e ressuscitado, dando início ao maior movimento religioso e cultural da história da humanidade.
Era considerado uma fraude desde o século XIV, após o resultado de investigações a pedido do bispo de Troyes. Exibido publicamente na recém inaugurada igreja de Lirey, foi devolvido para a família de Godofredo I,  detentora do pano e que o considerava autêntico.
De lá pra cá, a mortalha quase foi perdida num incêndio na Capela de Chambéry, em 1532. Foi salva por pouco. Apesar dos danos sofridos, a imagem não foi comprometida e as freiras do lugar lhe fizeram remendos e puseram um forro novo.

Em uma de suas raríssimas exposições públicas, foi fotografado pela primeira vez por Secondo Pia, em 1898. Enquanto revelava o trabalho em seu laboratório, ficou impressionado com rosto que surgia dos negativos. A imagem em negativo do Sudário revelava, diante de seus olhos, uma impressão que ninguém tinha visto até então. Estopim para novas pesquisas e teorias, a velha conclusão de que o tecido não passava de uma falsificação da Idade Média foi abalada pela inacreditável revelação e outras descobertas que atravessaram o século XX. Especialmente a década de 1970. Nenhuma delas contundentes. As tentativas de ligar o Sudário ao século I e, principalmente, a figura de Cristo, resultavam sempre em ambiguidades - embora o respaldo arqueológico indicasse que o linho pudesse provir da Palestina e os padrões de tessitura correspondessem àquela cultura. Em 1988, porém, pedaços do tecido foram expostos ao teste de carbono-14 e a comunidade científica pôs um fim à discussão. Os testes comprovaram que o linho foi produzido entre os séculos XIII e XIV. O resultado anacrônico abalou a comunidade de pesquisadores defensora da autenticidade do Sudário.

Thomas de Wesselow nos apresenta, inicialmente, um mistério. O mistério da Páscoa ou da Ressurreição de Cristo. A base da pregação do cristianismo, movimento que cresceu surpreendentemente nos primeiros séculos. O capítulo introdutório de O Sinal narra esses acontecimentos segundo os evangelhos, o testemunho de Paulo, o livro dos Atos dos Apóstolos e as poucas menções de historiadores da época.

Unido ao coro dos que não concordam com o resultado da datação por carbono-14, o autor passa então a se valer da pesquisa dos sindonologistas que tiveram contato com o Sudário e com as evidências arqueológicas que remontam a possibilidade de origem no século I. Discorre sobre a impressionante impressão do homem do Sudário e as várias teorias e recriações da fraude, com resultados sempre aquém do original,  a fim de atestar a impossibilidade de engenhosidade humana. Finalmente, parte para diversas suposições de impressão natural causadas por emanações corporais. Nesse ponto, o livro contém um apanhado de informações preciosas que seriam bem mais interessantes caso não estivessem dispostas para comprovar a autenticidade do Sudário com o fim de promover a sua ambiciosa teoria sobre a Ressurreição.

E é aqui que seu livro atesta minha segunda impressão inicial.

A segunda metade da obra é uma pretensão equivocada para explicar racionalmente a origem do cristianismo e o sucesso de sua rápida ascensão - obviamente ligado ao seu cerne, a inexplicável Ressureição de Jesus. Wesselow sugere, categoricamente, que o Cristo ressuscitado não pode ser outra coisa senão o próprio Sudário. Nessa tentativa ele reinterpreta algumas passagens dos evangelhos e do Novo Testamento sempre se utilizando do texto grego original. Encaixa, de maneira nem sempre convincente, o Sudário nas situações que julga embasadas em testemunho histórico, mas distorcidos pelo fato dos evangelhos resultarem de tradição oral, sendo registros não muito precisos e geralmente ambíguos. Cita os evangelhos apócrifos. Procura explicar a diferentes narrativas sobre a descoberta do túmulo vazio - surpreendentemente sustenta que o túmulo não estava nada vazio, para validar suas hipóteses - e elimina os testemunhos que classifica como complementos fantasiosos para tentar explicar e dar forma física ao Jesus Ressurreto (como a aparição de Jesus a duas testemunhas no caminho de Emaús). O resultado é uma interpretação forçada que se reconhece como uma visão racional e viável da origem do Cristianismo.

Não me convenceu.

Para validar sua teoria, Thomas de Wesselow se torna extremamente repetitivo, deixando a agradável exposição da primeira parte do livro dar lugar a uma série de pressupostos que reforçam seu argumento, já duvidoso desde o instante em que detalha a maneira como os apóstolos teriam interpretado a impressão na mortalha de Jesus. O início dessa exposição nos é apresentada como um insight repentino seu, uma ideia exclusiva - o que talvez não seja - que resultou nos cinco anos de pesquisa sobre o material que gerou o livro e cujas respostas entram para a já enorme onda de especulações sobre o Sudário.

Genuíno ou não, apesar de tudo, o Sudário de Turim é uma peça, no mínimo, desconcertante.  E, penso, pode sim ter sido o tecido que envolveu Jesus no sepulcro quando, por conta da aproximação da Páscoa, não foi possível finalizar o ritual de sepultamento, ficando esse para ser concluído posteriormente. Na tentativa de identificar o pano como a mortalha que teria envolvido Jesus, a pesquisa do autor é abrangente e bastante esclarecedora, atestando ou contestando essa possibilidade. O livro seria melhor se ficasse apenas nisso.

O Sinal - O santo Sudário e a Ressurreição de Cristo
Thomas de Wesselow
512 páginas
Editora Paralela

domingo, 2 de setembro de 2012

Kiki de Montparnasse

Justamente por ler bastante sobra pouco tempo para escrever a respeito, e sempre há muito o que dividir sobre as descobertas aventurescas de tais leituras. A graphic novel Kiki de Montparnasse, com desenhos de Catel Muller e cenários de José Louis Bocquet é uma boa dica para quem deseja apreciar um ótimo trabalho de pesquisa aliado a um traço competente que retrata a belle époque dos dandys e da incipiente emancipação do "bello sexo" - dos "almofadinhas" e das "melindrosas" como eram chamados aqui no Brasil, nos "anos loucos" da década de 1920 -, expesso no mesmo estilo das charges da época.

A história acompanha a icônica e polêmica Alice Ernestine Prin, conhecida pelo nome de Kiki - como passou a ser chamada pelo pintor polonês Maurice Mendjisky. Ela também será a musa de outros pintores e artistas da época: Fujita Tsuguharu, Man Ray, Moïse Kisling, e outros. Como musa e companheira de Man Ray - que alcançou a glória como pintor e começou a fazer cinema - foi atriz de seus primeiros experimentos cinematográficos. Kiki polemizou a sua geração com o seu jeito atrevido e sem pudores - audaz defensora da liberdade de expressão, às vezes se excedia. Ela cantava e dançava nos clubes noturnos de Montparnasse, e as letras de suas canções tinham teor normalmente atrevido. Por isso, fora do círculo parisiense, ela era refutada como prostituta, e para a sua família interiorana, uma ovelha negra. As cartas que ela escrevia para a avó - confidente, e a verdadeira responsável por sua criação, pois a mãe se ausentara desde a infância - nunca chegavam ao seu destino, interceptadas pela família.


Influenciada pelo amador de artes Henri-Pierre Roché, Kiki de Montparnasse também dedicou-se à pintura expondo suas obras na galeria Bernheim, em 1930. Um ano antes ela começou a publicar o seu diário de memórias, e nesse mesmo ano, num baile de gala, foi reconhecida como a Rainha de Montparnasse. Algum tempo mais tarde, casou-se com um acordeonista, mas separou-se anos depois, não conseguindo controlar os seus impulsos extravagantes.
Um insólito gato preto, pintado por Kiki no famoso quadro onde retrata a sua família, parece enunciar o agouro que, para os seus parentes, devia ser a sua vida. Com a chegada da guerra muitas coisas mudaram e alguns de seus influentes amigos buscaram refúgio em outros paises para fugir do conflito, ou foram exilados.

Em consequência dos abusos da bebida e dos entorpecentes ela acabou adquirindo hidropsia, que a tornou inchada e quase irreconhecível, chegando ao ponto de perder a voz e viver da generosidade de seus amigos. Aquela que fora a musa de tantos artistas, que inspirou tantos quadros e roubou tantos suspiros, morreu em 1953, em Paris, contando com a presença de apenas alguns amigos no momento do seu enterro.


Em pleno início do século XX, foi uma figura polêmica, que viveu um período no qual o movimento feminista enfrentava inúmeras barreiras para elevar a mulher à instâncias monopolizadas pelo homem - a graphic novel registra um momento no qual Kiki e uma amiga estão em um bistrô recém-inaugurado, e são avisadas que não podem ser servidas por estarem sozinhas na mesa, sem presença masculina, o que gera uma reação escandalosa da protagonista - onde Kiki chama a atenção de Man Ray, pela primeira vez. 

Aqui no Brasil, foram justamente o cinema americano - "uma tentação do mundo moderno", expressão purista da época -, o movimento feminista estrangeiro e a moda ditada pela Europa (principalmente a parisiense) que levaram as brasileiras à transformações significativas. Surgiu uma nova mulher que deixou que a velha e ultrapassada figura da mulher doméstica, à parte do convívio social, fosse substituida aos poucos pelas ativistas em esferas intelectuais até então apenas ocupadas pelos homens.

Kiki de Montparnasse
Autores: Katell & Bocquet
413 págs 
Editora: Galera Record



domingo, 26 de agosto de 2012

Resenhas no icultgen

Já faz um bom tempo que não escrevo para este blog. Muito trabalho, cursos e, claro, leitura e cinema, minhas fontes de entretenimento e consumo, são os principais responsáveis pelo pouco tempo para escrever - o que é paradoxal, pois os últimos são o meu combustível diário. A escrita, uma atividade que gosto de exercer por prazer, toma um tempo maior pois requer uma forma de dedicação diferente na qual você não consome, apenas entrega. 

Revisitando o blog na semana passada, e relendo alguns posts, pensei que nada disso teria sido escrito não fosse a possibilidade de publicação e exposição para que meus colegas, amigos e outras pessoas tivessem acesso a assuntos que me fascinam - ao mesmo tempo em que serviam como registro de momentos mágicos da minha vida, que gosto de compartilhar. Apesar da falta de tempo e mesmo inspiração para escrever, de vez em quando, postava um texto novo, mas o período entre uma publicação e outra começou a se tornar cada vez maior. Um aspecto que me levou a abandonar um pouco o blog foi a minúscula frequência de visitas. Embora já fosse assim desde o começo - na verdade, nem a minha esposa passa por aqui - acabei perdendo um pouco o interesse de publicar conteúdo. Contudo, algumas pessoas curtiram alguns textos aqui postados, o que me abriu espaço para publicá-los em um site que sigo desde o ano passado, aproximadamente. Minhas últimas resenhas de livros podem ser conferidas no http://www.icultgen.com.br/  - que é um fascinante reduto de cultura pop, e a minha jornada pela literatura está sendo atualizada aqui.

Continuarei postando neste espaço, e para aqueles que passam por aqui de vez em quando, desculpo-me pela falta de conteúdo novo, o que tentarei corrigir.

Quem quiser conferir minhas primeiras resenhas no icultgeneration, siga os links abaixo:




terça-feira, 8 de maio de 2012

A Literatura como Espelho

Lendo o romance 'As Correções', de Jonathan Franzen, ocorreu-me como esse autor consegue extrair profundas impressões dos seus personagens nas mais triviais e muitas vezes banais situações, regadas com diálogos simplórios e observações divagadoras. Para o leitor acostumado a textos menos descritivos ou filosoficamente mais densos, é provavel que a leitura de seus romances seja avaliada negativamente, chegando ao ponto de determinados parágrafos cairem no conceito da pura embromação sem muito sentido e destituidos de conteúdo importante para a trama. De fato, existem certos aspectos maçantes no decorrer do texto, uma certa demora dedicada a detalhes e situações morosas, o que torna a leitura cansativa com seus termos técnicos/explicativos e, por vezes, de difícil leitura. A sua repetição pode causar a imobilidade do leitor menos paciente e mais exigente.

'As Correções' é o segundo livro que leio do autor de 'Liberdade', e ambos se tornaram uma experiência e tanto. Sua leitura contribui para o conhecimento do ser como indivíduo, expandindo para a interação desse indivíduo com a sociedade. O mecanismo da máquina mental, seus bloqueios e anseios, problemas e paixões são considerados em seus personagens de uma maneira nua e crua. Chegam a se apresentar tão extraordinariamente comuns que é quase impossivel não se identificar com seus conflitos, que são os mesmos conflitos vividos por uma pessoa normal, no seu dia-a-dia. Todo o imbróglio dessa interação entre membros de uma mesma família, amigos ou amantes, são expostos em camadas individualmente reveladoras. Para o leitor atento, são reflexivas, e levantam uma crítica ao estilo de vida da nossa sociedade de consumo exacerbado.

Por que agimos como agimos em determinadas situações? Os personagens dos romances de Franzen tem as suas razões expostas grosseiramente às vezes, e sem censura, nas linhas que destrinchamos, o que pode levar o leitor a analisar-se e evidenciar para si mesmo suas próprias motivações e a daqueles que o cercam.

É a literatura como espelho da sua geração. 

AS CORREÇÕES
Autor: Jonathan Franzen
586 páginas
Editora: Companhia das Letras

domingo, 18 de março de 2012

Apocalipse Zumbi no Brasil

Quando George A. Romero dirigiu o seu clássico filme "A Noite dos Mortos Vivos", em 1968, revitalizando o gênero do terror, que ainda era carregado de suas raízes góticas, impôs um novo estilo de linguagem contemporânea e pseudo-documental. A única informação que os personagens isolados na casa de fazenda - e nós também - possuiam sobre o que estava acontecendo era através da cobertura televisiva. O terror gerado pelos desmortos sedentos de carne humana inaugurou uma mania que marcou a cultura pop e que permanece mais viva do que nunca no cinema e na literatura. O próprio Romero dirigiu um segundo filme, "O Despertar dos Mortos", novamente se utilizando de um cenário caótico como alusão subtendida da sociedade moderna. Se no primeiro ele faz uma ácida crítica ao racismo, neste ele aborda o expectador com uma metáfora da cultura capitalista.
A origem da manifestação dos mortos-vivos também evoluiu com o passar das décadas e, se no primeiro longa de Romero ela era resultado de uma radiação proveniente de uma sonda que retornou de Vênus, hoje o fenômeno é causado por vírus e experiências genéticas frustradas.

Com o cuidado de manter todas as características já estabelecidas pelo gênero, a narrativa de "Apocalipse Zumbi" coloca o leitor em meio a um futuro distópico cuja ordem ruiu num passado não muito distante, quando a hecatombe zumbi, de repente, eclodiu em todos os lugares do mundo. Os detalhes são revelados aos poucos através dos flashbacks de alguns personagens, no melhor estilo Lost.
A aventura se inicia com uma vítima caçada por um enorme bando de contaminados (como os zumbis são chamados aqui) que é resgatada por um grupo de batedores sobreviventes, que trafegava pelas ruas da cidade em busca de provisões para uma pequena sociedade remanescente refugiada num baluarte chamado de "Quartel". O único refúgio conhecido onde as pessoas tentam dar um tom de normalidade aparente às suas vidas.
A tentativa de socorrer a vítima dos seus perseguidores, porém, é desastrosa e os sobreviventes agora precisam aguardar o resgate, escondidos em meio às ruinas do que um dia foi a civilização, enquanto estão cercados pelas primais criaturas.

No Quartel, o líder da pequena sociedade, chamado Manes, decide liderar uma equipe de voluntários a fim de resgatar seus homens que ficaram à deriva, apesar dos severos protestos de sua esposa e dos membros do abrigo, cujo relacionamento, pontuado por atritos e discordâncias, são sempre equilibrados pela força da presença e sensatez do seu líder. Ao mesmo tempo, o grupo acaba de prestar ajuda a um novo e misterioso personagem cujas intenções já começam a ser percebidas logo nas primeiras páginas.
Não obstante as queixas, porém, Manes sai com um pequeno grupo de pessoas treinadas em combate para tentar um resgate suicida, deixando para trás um grupo cheio de facções marcado pela desesperança e com uma fina camada de civilidade que está prestes a se romper.

O livro é pontudado por diversas sequências inusitadas cheias de adrenalina e ação, não faltando os momentos excessivos de bravura de seus protagonistas. Os zumbis de Callari são ágeis, e embora destituidos de inteligência, são capazes de verdadeiras proezas para alcançar as suas vítimas. Como no filme de Romero, e de muitos outros da mesma linha, a situação só piora a cada momento, levando os personagens a níveis perturbadores de desespero e perda de humanidade.

Não faltam os clichês típicos do gênero e alusões, através de toda a narrativa, aos melhores filmes de ação dos anos de 1980 e da atualidade. "O exército de um homem só" faz juz a alguns dos heróis dessa aventura de terror e as diversas referências à cultura pop - que pululam a cada virada de página - denunciam o caráter nerd do autor, que também é tradutor, comentarista e articulista do site Pipoca e Nanquim, além de colecionador de hqs antigos.

"Apocalipse Zumbi - Os primeiros Anos", é a primeira obra do gênero escrita e publicada no Brasil (e faz parte de um projeto maior, segundo o autor), o que por si só já a torna um interessante objeto de leitura, mesmo para aqueles não apreciam o gênero. 

APOCALIPSE ZUMBI - OS PRIMEIROS ANOS
Autor: Alexandre Callari
336 páginas
Editora: Generale

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Deuses Americanos, por Neil Gaiman

Um ex-presidiário está a caminho do lar para retomar sua vida, após cumprir uma pena de 3 anos. Na memória, carrega a lembrança de sua esposa e de uma época interrompida por um crime tolo. Ele já cumpriu a sua pena. Tudo o que ele precisa agora é retornar aos calorosos e perfumados braços de sua eposa e para o velho trabalho na academia do seu melhor amigo. Mas uma chocante descoberta e um encontro inesperado abalam as perspectivas de Shadow levando-o a aceitar um estranho trabalho de um sujeito enigmático chamado Wednesday.
Desse ponto em diante, Shadow viverá experiências que desafiarão o seu senso de realidade e entrará em contato com um universo paralelo repleto de deuses e entidades bizarras, além de fantasmas que insistem visitá-lo. Viajando pelos Estados unidos, em meio a sonhos arrebatadores e encontros intrigantes - que lembram a aventura de Carlos Castañeda em Estranha Realidade e Segundo Círculo do Poder - o cenário para a deflagração de uma guerra iminente  toma forma e segue para o seu climax, enquanto Shadow procura saber qual o seu papel em meio aos acontecimentos.

Neil Gaiman entrega ao leitor uma narrativa envolvente, onde aborda o destino dos deuses da mitologia do Velho Mundo, trazidos para o Novo Continente por viajantes de eras passadas, convivendo no presente onde não são mais cultuados. Estranhos sem raízes, destituidos de cultura própria. Subsistindo num mundo sem fé, mesmo sendo relegados ao esquecimento. Suprimidos pela concorrência com tempo, que tudo muda. Trocados pelos deuses da mídia, do culto às celebridades, das drogas, da tecnologia e pelo hedonismo.
Com os seu estilo característico, o autor constrói personagens que encantam e outros que incomodam, cruza estórias curtas no contexto do romance e enriquece o seu conteúdo, nunca perdendo o ritmo. Os contos curtos, no final de quase todos os capítulos bem caberiam numa antologia de literatura fantástica.

Quando foi publicado em 2002, Deuses Americanos recebeu o Prêmio Hugo por romance em destaque e o Prêmio Nebula.  Com o passar dos anos, Gaiman revisitou o universo de "Deuses Americanos" no conto "O Monarca do Vale" publicado no primeiro volume de "Coisas Frágeis", obra que reúne diversos contos do autor.


DEUSES AMERICANOS
Autor: Neil Gaiman
448 páginas
Editora: Conrad do Brasil

sábado, 31 de dezembro de 2011

Liberdade, de Jonathan Franzen

Quando ouvi falar do romance "Liberdade" de Jonathan Franzen e do pretensioso epíteto de "O livro do Ano, e do Século", resolvi procurar saber mais sobre a obra. Li análises de críticos que confirmavam o brilhantismo do texto, embora se reservassem denotá-lo nos mesmos termos críticos do "The Guardian". Também procurei a opinião de leitores casuais cujas opiniões eram divergentes em seus comentários. Alguns consideravam um romance maravilhoso. Um verdadeiro tratado biográfico de uma família que atravessa quatro importantes décadas como cenário. Outros eram da opinião de que o texto era insosso e invariavelmente perdia-se em diálogos sem sentido ou simplistas demais.
Resolvi adquirir um exemplar e conferir por conta própria. Foi uma agradável experiência que me despendeu cada espaço de tempo livre das duas últimas semanas. O livro é realmente esplêndido e fico feliz por ser o último livro que tive oportuniade de ler este ano.

A história narra a vida intrincada da família Berglund. Uma família liberal estadunidense, de classe média, que acaba sendo sacudida pelas reminiscências do passado do casal, Walter e Patty Berglund. A narrativa atravessa os conturbados anos 1970, e se estende até o final da primeira década do século XXI, exibindo um panorama socioeconômico do País. Tece um painel realista sobre o problema da conservação ambiental e da atual preocupação acerca da incapacidade do planeta de suportar o desastroso impacto de uma sociedade em constante crescimento, com hábitos inconseqüentes de consumo e ocupação, em nome do sonho da aceitação, estabilidade e segurança. 

A obra também menciona a neurose e o medo que se instalou nos EUA após os atentados do 11 de setembro, e a consequente retaliação do governo Bush ao declarar a guerra ao terrorismo, com seus desdobramentos. Discorre sobre a opinião nacional divergente, movida pela mídia, após o fracasso das tropas em encontrar um arsenal de armas nucleares no Iraque - suspeita que levara o povo, com orgulho ferido, a apoiar a atitude do governo de invadir aquele País. A mesma mídia, aliás, que parecia apoiar aquelas medidas pelas mesmas razões. Tudo isso pulverizado em meio a narrativa intrincada sob a perspectiva de um casal em conflito com as suas escolhas, dúvidas, seus erros e acertos, e com o persistente e sempre presente espectro do passado. 

Dispensando o moralismo açucarado e pretensioso, o autor esmiuça a vida dos Berglund magistralmente, e apresenta personagens realistas com os quais qualquer leitor pode se identificar facilmente. Sem perder o ritmo, Franzen apresenta um final, se não ideal, pelo menos emocionante e comovente.
Enfim, após a leitura, só pude concluir o mesmo que a marcante personagem, que resolve escrever sua reveladora auto-biografia em terceira pessoa, intitulada como uma espécie de consolo para si mesma: "Todo mundo erra". 
Resultado: para mim, foi o melhor livro que li este ano.

"Liberdade" é uma publicação da editora Companhia das Letras.


sexta-feira, 11 de novembro de 2011

SUB SPECIE AETERNITATIS

Na semana passada, após ler um extrato que eu transcrevi do livro “A Insustentável Leveza do Ser”, postado no meu perfil de uma rede social voltada para leitores, uma das integrantes da minha tímida lista de amigos fez um comentário interessante: '… vejo que gosta da imortalidade de Kundera.' A palavra imortalidade fora sublinhado por ela. Fiquei um tanto curioso pela sua observação e, principalmente, pelo termo sublinhado - que somente mais tarde percebi tratar-se de uma referência a outra obra de Kundera, "A Imortalidade". Reli o texto que extrai do livro e tentei encontrar ali o sentido para seu comentário. Aquele extrato em nada sugeria o conceito da eternidade nietzschiana e spinozista que permeia a obra, mas gostei de fazer uma releitura e meditar um pouco à respeito.
Pensei o livro, a singular narrativa do autor. Lembrei dos personagens e a abordagem filosóficamente marcante da escrita de Milan Kundera, ao mesmo tempo observadora e perscrutadora das vidas que retrata no seu romance. O escritor evita contar a história daquelas pessoas como um expectador passivo que apenas discorre as atitudes delas e as consequências resultantes. Ao invés disso, Kundera se reserva ao papel de um observador contumaz e trata de discorrer o mundo interno das quatro personagens centrais de seu livro: Teresa, Tomas, Sabina e Franz.
Não há nada de estranho nisso, a maioria dos autores clássicos explora a psique de seus personagens. Mas Kundera faz isso de maneira espetacular recorrendo a diversas digressões ao passado daquelas pessoas para explicar suas personalidades, quase como que tentando dar-lhes uma razão própria, excluindo-as de qualquer julgamento moral. Ele faz esse exame imparcialmente, flertando com o determinismo. Escreve desculpando suas desventuras a fim de corroborar o escopo de sua teoria, para nos mostrar algo que os filósofos existencialistas chamam de condição humana. Faz questão de demonstrar os motivos internos que levam seus personagens a agir de determinada maneira, como que para eximi-los de julgamento quando interpretados de um ponto de vista externo, cuja pressão ele faz questão de esclarecer, o que é mais importante. 
Sua maestria em descrever humanamente essas duas perspectivas acaba levando o leitor a se identificar com as fraquezas dos seus personagens, que são também as nossas fraquezas.

Milan Kundera começa mostrando uma dessas histórias possíveis na vida de cada ser humano, que é inerente a cada um de nós: a visão que temos a partir de dentro. Nela, somos o centro das atenções, e conferimos a nós mesmos um centro de significância e desempenhamos o papel principal. Temos uma ideia exata de quem somos e uma certeza de importância imanente. Há metas, sonhos, memórias de uma história de vida linear que define nossa identidade e que são bases para nossas atitudes, dando-nos consistência. Enfim, somos os dignos personagens centrais da história. Pelo menos, da nossa história. Nela, temos a sensação de poder controlar o nosso destino, escrevendo novos capítulos dia após dia.
Mas essa é uma noção limitada e apenas uma parte incompleta do enredo.

Um bom exemplo que ilustra a limitação dessa visão interna e suas consequências é a ideia da importância do homem como o centro da Criação, que inspirou grandes pensadores a interpretar o mundo à sua volta de acordo com esse entendimento. Por conta disso, acreditavam que a Terra, lar do homem, era o centro do universo, com os planetas girando ao seu redor com uma coorte estelar a lhes fazer a honra nessa dança. O homem era o centro do universo. Do nosso ponto de vista, de fato, parecia que o sol, a lua e as estrelas giravam em torno de nós, afinal, descreviam seus circuitos de leste a oeste todos os dias e noites, o que levou à hipótese geocêntrica, aceita pela maioria durante muitos séculos. Essa interpretação foi muito bem recebida pelos religiosos. Outros pensadores (os heliocêntricos Johannes Kepler e Galileu Galilei, apenas para citar alguns dos mais famosos) que começaram a perceber que algo estava errado nessa interpretação - pois o fato de ser ou não o homem o centro de alguma coisa era irrelevante diante da verdade - foram perseguidos pelos geocentristas e, como não podia deixar de ser, pela Igreja, que durante muito tempo exerceu poderes de Estado. Foi determinado que a visão deles (o heliocentrismo, a teoria da terra e os planetas girando em torno do sol) era uma heresia, porque tirava o homem do centro da Criação. Mais tarde, não sem algumas baixas (falando modestamente), provou-se que a visão heliocêntrica estava correta. Não éramos mais o centro de um universo no qual os astros e toda a Criação desfilavam ao nosso redor. Tudo é muito, muito mais complexo e grandioso do que isso, como sabemos... Nossa mítica importância começou a declinar à medida em que passamos a conhecer melhor o universo que nos cerca.
Um ponto de vista interno e limitado pode colidir desastrosamente com a visão de fora, mais abrangente e realista (e, como descrevi acima, pode ser exatamente o oposto do que se pensa).

Millan Kundera também trata seus personagens a partir dessa outra história possível: a visão do lado de fora. O escritor e filósofo Mark Rowlands, Autor do livro "Scifi=Scifilo", descreve esse outro aspecto da seguinte forma:'(…) O efeito da segunda história, aquela contada do lado de fora, parece uma drástica realocação do nosso papel na trama. Longe de sermos o personagem principal da história, estamos reduzidos a um figuração. A história do lado de dentro gira ao nosso redor, mas na outra história cada um de nós é apenas um simples personagem em meio a muitos outros, um personagem cuja entrada em cena é determinada por outras pessoas e que não tem nenhum controle real sobre a hora da sua saída do palco. As coisas que impulsionam nossas vidas, as coisas que queremos, nossos planos, projetos e metas - aquilo que podemos chamar de nossa motivação - são o resultado de forças que não controlamos. Aparentemente, nosso papel foi escrito por outra pessoa. Temos pouco controle sobre o seu conteúdo e não temos a menor ideia de qual é o seu sentido.” Ele continua, de forma nem um pouco animadora: “...Além disso, somos individualmente o produto de forças que não escolhemos e que mal compreendemos. Não escolhemos nossos pais nem a época em que nascemos, e assim recebemos uma determinada herança genética sobre a qual não temos controle algum, mas que, até um ponto significante, tem controle sobre nós. Essa herança determina, em parte, as doenças a que somos suscetíveis e os limites de nossas capacidades intelectuais, atléticas e morais. Talvez não totalmente, mas o suficiente. Nascemos num ambiente que vai preencher o pouco espaço que sobra do que foi determinado geneticamente, um ambiente que, novamente, não escolhemos e sobre o qual mal temos controle, pelo menos durante nossos anos de formação. A maneira como somos e aquilo que fazemos são resultados de nossos genes e nosso ambiente, que, juntos, exercem em nós uma influência que compreendemos de forma bastante nebulosa. Era isso que os filósofos existencialistas, como Jean-Paul Sartre, por exemplo, queriam dizer quando afirmavam que somos jogados no mundo.”

Retornando ao meu exemplo, acrescentaria, para engrossar o caldo da nossa insignificância na segunda história, que vivemos num planeta com uma população de quase 8 bilhões de habitantes, que gira em torno de uma estrela que orbita uma galáxia onde existe bilhões de estrelas cercadas por seu próprios planetas. A nossa galáxia é apenas mais uma em meio a um universo que comporta bilhões de outras galáxias que também possuem seus bilhões de estrelas com seus respectivos planetas. Poderia citar ainda a teoria do multiverso, ou seja, a possibilidade da existência de outros universos independentes do nosso. Mas já deu pra entender onde quero chegar. Com essa pequena concepção do que existe lá fora fica meio dificil aceitar que Terra é o centro do Universo e que o homem é o centro da criação (bom, se você quiser, ainda pode admitir isso, afinal, nenhum alienígena desembarcou por aqui para dar um alô até agora).

O problema que quero mostrar aqui é aquele que encontramos quando tentamos conciliar as duas histórias, essas duas visões, a interna e a externa. Enquanto internamente somos o centro das atenções e de significado, do lado de fora não podemos ser nada disso absolutamente. O contrário também é verdadeiro: enquanto por dentro alguém pode se sentir um 'nada', quem o vê de fora pode encontrar nele um 'tudo'. Existe uma incompatibilidade aqui e um problema filosófico de duas versões da mesma história que deveriam ser verdadeiras mas não são. Alguém tem que estar com a verdade, ou então as duas versões combinadas deveriam corresponder a verdade. Mas por serem incompatíveis, não podem. Quando ambas são consideradas, uma história contradiz a outra. Algo como querer e não poder ou que deveria ser mas não pode. Esse paradoxo é chamado de condição humana. O que dá muito no que refletir e existem inúmeros problemas que resultam daí que são um apetitoso caldo filosófico.

Não é sem razão que o filósofo existencialista Martin Heidegger, disse certa vez, “o homem é o ser cujo ser é uma questão para si”.

Essa é apenas uma das muitas reflexões que fiz da leitura de “A Insustentável Leveza do Ser”. Encontrei ainda paralelos com o filme “La Dolce Vita” de Federico Fellini, que também discorre de maneira ainda mais crua a natureza dessas duas versões da mesma história, que corroboram o conceito de 'deveria ser mas não pode'. Uma amostra de como a leveza pode ser insustentável, pois é leve quando considerada de uma perspectiva externa, mas pode ser um peso do ponto de vista interno... 
Mas chega de divagações por hora.

sábado, 29 de outubro de 2011

Doce Rebeldia

Ontem peguei o novo volume da coleção de Calvin & Haroldo, que adquiri recentemente, e dei de cara com a "Canção do Yukon" que é uma introdução da obra. Ria enquanto lia, e lembrava do pouco do que a minha memória guardava dos velhos tempos de criança.
Os quadrinhos do Bill Watterson tem essa força, conseguem traduzir como ninguém, e sem moralismos, o que é ser criança, ao mesmo tempo em que filosofa sobre os principais problemas que assolam nosso século. Tudo isso através dos diálogos dessa cativante dupla: Calvin e o seu tigre de pelúcia Haroldo. Watterson capta também os desconcertantes momentos da vida de um casal com filhos e faz uma contundente critica sociopolítica do seculo XX.


A Canção do Yukon


Pegue o trenó, meu amigo felino
Fiz um lanche pra gente levar
Estamos prontos, e o nosso destino
É partir e não mais voltar!


Pros diabos com a velha vida!
Adeus, mamãe e papai.
Cansamos da rotina sofrida.
E, ao rabanete, diremos não mais!


Quero que a vida tenha sentido.
Quero brincar na neve o ano inteiro
E não meus pais berrando no meu ouvido
"O seu quarto está um chiqueiro".


Yukon é onde queremos morar!
Não há outra alternativa
Lá vamos gritar e xingar
E agir de maneira primitiva.


E àquela escola nefasta
Não mais iremos voltar
Aos professores tirânicos, um basta
Ninguém vai me ensinar a somar.


Legume é uma grande bobagem
Espinafre não faz crescer
De agora em  diante serei um selvagem
E só uso garfo se eu bem entender!


Nosos amigos serão lobos
Vamos dormir tarde e com eles uivar
A noite inteira sentados num toco
E de manhã queremos caçar.

Espero estar sendo enfático:
em mim ninguém vai mandar!
Ó terras geladas do Ártico!
Isso é que é vida! Mal posso esperar!


Nada de regras pra nós!
O tempo sem neve acabou.
Já vão tarde os adultos bocós!
Estamos de partida! Yukon Ho!

(Extraído do volume de "As aventuras de Calvin & Haroldo por Bill Watterson - Yukon Ho!", e que somente postei aqui porque meu filho de 5 anos ainda não sabe ler.)


Politicamente incorreto? Troque os problemas de uma ingênua criança de 6 anos pelos seus e pense se, no final das contas, você também não gostaria de estar em Yukon... Seja lá o que Yukon signifique pra você.

A Conrad publicou todas as tirinhas do Calvin & Haroldo em volumes encadernados. Bill Patterson, que começou a publicar as tirinhas em 1985, deixou de publicar tiras inéditas 10 anos depois, e foi relutante em comercializar o licenciamento de produtos com os seus personagens. O extrato acima é a introdução do álbum "As Aventuras de Calvin & Haroldo por Bill Watterson - Yukon Ho!". Todos os álbuns publicados pela Conrad podem ser adquiridos em livrarias especializadas ou na loja da editora.

Recomendabilíssimo!!!

segunda-feira, 8 de junho de 2009

O complô


  Tenho um amigo muito especial, mas dono de uma ingenuidade extrema. Ele parece uma pessoa fácil de impressionar e que normalmente acredita em coisas meio incomuns, mesmo quando são enunciadas de formas pouco convincentes. Ele raramente questiona a fonte de uma informação por mais incoerente que ela seja. Há alguns anos atrás, veio com um disquete de computador que, segundo disseram a ele, continha um documento de texto com uma articulação judaica para a conquista do mundo. Uau!!! De fato, quando abri o arquivo, tratava-se de uma cópia eletrônica dos Protocolos dos Sábios de Sião.

  Os Protocolos são uma conspiração atribuída a sábios judeus que contam os detalhes de um plano para dominar o mundo. Na verdade, esse documento é uma falácia forjada pelo serviço secreto russo, em 1898, para convencer o tzar Nicolau II de que o movimento revolucionário que ameaçava a estabilidade política era parte de um plano judaico. A farsa foi encomendada a um inescrupuloso e ganancioso exilado russo que vivia na França, Mathieu Golovinski, que plagiou um livro intitulado “O Diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu”, publicado em 1864. Golovinski fez uma verdadeira colagem dos textos, adaptando e acrescentando apenas alguns pontos para que servissem ao nefasto propósito de seus clientes. Eis a verdadeira origem dos Protocolos dos Sábios de Sião.

  Essa é uma triste história contada por Will Eisner (1917-2005) no seu último álbum: “O Complô - A História Secreta dos Protocolos dos Sábios de Sião” – publicado aqui no Brasil pela Cia. das Letras. O autor dedicou anos em pesquisas a fim de levantar todos os dados do caso e seus desdobramentos. Ao acompanhar seu relato, apresentado magistralmente na linguagem dos quadrinhos, temos uma clara idéia dos danos que esse manuscrito exerceu, colaborando para fomentar ainda mais o anti-semitismo pelo mundo afora. Através da obra de Will Eisner ficamos sabendo que, de Henry Ford, que mais tarde se retratou quando se convenceu da farsa, a Hitler, os Protocolos vêm sendo utilizados para “alertar” o mundo dessa suposta ameaça judaica. Na Europa, por exemplo, nas décadas de 1920 e 1930 os Protocolos eram quase tão populares quanto a Bíblia. Segundo o livro de Eisner, não há quase ou nenhum movimento de intolerância aos judeus que não tenha sido influenciado pelo panfleto. Ainda hoje, esses livros são publicados entre árabes, europeus e asiáticos, não obstante as provas trazidas a lume em 2002, publicadas pelo jornal parisiense Le Figaro, que atestam definitivamente a falsificação.

  O mais impressionante é que, mesmo diante da exposição dessa fraude, inúmeras pessoas desinformadas aceitam essa idéia sem a mínima noção do que estão fazendo. Colaboram para a sobrevivência daquilo gerou os Protocolos: o ódio e a intolerância por um povo. Isso é racismo. Umberto Eco, que escreveu a introdução do álbum de Eisner, comenta: “Como se pode explicar a resistência contra todas as provas e o perverso apelo que esse livro continua a exercer?”. Ele conclui não muito otimista: “Acredito que – apesar de corajoso, e não cômico, mas trágico livro de Will Eisner- essa história está longe de terminar. Ainda assim, é uma história que merece ser contada, porque devemos combater a Grande Mentira e o ódio que ela cria”.