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domingo, 1 de abril de 2012

A Jornada da Alma

Eu estava na minha locadora predileta, no início da semana, carregando comigo um livro do Carl G. Jung,  quando um desconhecido que notou meu objeto de leitura, chamou-me atenção para o filme "Um Método Perigoso".
Ele assistira uma exibição da película ano passado, no Festival de Cinema do Rio, e achou a obra excelente. O filme entrou em cartaz, coincidentemente, neste fim-de-semana.  O dono da locadora, outro cinéfilo, indicou-me uma referência cinematográfica sobre o tema, que acabei alugando.

Acabei de assistir  A Jornada da Alma do diretor italiano Roberto Faenza. O filme é baseado no livro Um método muito perigoso: Jung, Freud e Sabina Spielrein – a história ignorada dos primeiros anos de psicanálise, de John Kerr. Trata-se de uma produção de 2003 que conta a história de Sabina Spielrein (interpretada por Emília Fox, de "O Pianista"), focando a sua vida a partir do início do seu tratamento em 1905, numa clínica em Zurique, pelo então jovem Carl Gustav Jung (Ian Glen), por quem se apaixona. O ponto de vista aqui é o da própria Sabina, que escreveu suas experiências em um diário, descoberto em 1977. Nessa película, o relacionamento entre ela e Jung, após a recuperação da histeria dela, tem um enfoque bastante romântico e, por isso, a narrativa não suscita as questões éticas do relacionamento médico/paciente com profundidade, ou mesmo os métodos de tratamento analítico do discípulo de Freud. As implicações desse romance no trabalho e no relacionamento dos dois analistas também não fica claro. O que pode decepcionar o público mais acadêmico. O próprio Freud aparece na narrativa somente através de citações e como fonte de conselhos, com o qual Yung se corresponde por cartas.

O importante aqui, portanto, é resgatar a história de Sabina (uma das primeiras pacientes de Jung e, mais tarde, discípula) cuja existência deixou seu impacto na vida dos pais da psicanálise, e a sua obra. Ela casou e fundou, em 1923, uma instituição chamada Creche Branca em Moscou (que ficou assim conhecida por ter todos os seus móveis e paredes pintados de branco), onde tratava crianças, inclusive aquelas com transtornos psíquicos, utilizando os métodos liberalistas que aprendera com o seu médico e ex-amante. O local foi fechado três anos depois pelas autoridades russas, sob a acusação de que tais métodos não eram de agrado do governo stalinista. O curioso é que o próprio Stalin matriculara um filho seu na instituição, com nome falso, como se soube mais tarde.
Sabina Spielrein era de origem judia, e foi assassinada, em 1942, por soldados nazistas na mesma cidade onde nasceu. Suas duas filhas também foram vitimadas com ela, e tudo o que nos restou da sua existência está anotado no seu diário.

Agora, depois de todas as boas indicações e dessa introdução, aumenta ainda mais o meu desejo de conferir Um Método Perigoso, de David Cronenberg.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

SUB SPECIE AETERNITATIS

Na semana passada, após ler um extrato que eu transcrevi do livro “A Insustentável Leveza do Ser”, postado no meu perfil de uma rede social voltada para leitores, uma das integrantes da minha tímida lista de amigos fez um comentário interessante: '… vejo que gosta da imortalidade de Kundera.' A palavra imortalidade fora sublinhado por ela. Fiquei um tanto curioso pela sua observação e, principalmente, pelo termo sublinhado - que somente mais tarde percebi tratar-se de uma referência a outra obra de Kundera, "A Imortalidade". Reli o texto que extrai do livro e tentei encontrar ali o sentido para seu comentário. Aquele extrato em nada sugeria o conceito da eternidade nietzschiana e spinozista que permeia a obra, mas gostei de fazer uma releitura e meditar um pouco à respeito.
Pensei o livro, a singular narrativa do autor. Lembrei dos personagens e a abordagem filosóficamente marcante da escrita de Milan Kundera, ao mesmo tempo observadora e perscrutadora das vidas que retrata no seu romance. O escritor evita contar a história daquelas pessoas como um expectador passivo que apenas discorre as atitudes delas e as consequências resultantes. Ao invés disso, Kundera se reserva ao papel de um observador contumaz e trata de discorrer o mundo interno das quatro personagens centrais de seu livro: Teresa, Tomas, Sabina e Franz.
Não há nada de estranho nisso, a maioria dos autores clássicos explora a psique de seus personagens. Mas Kundera faz isso de maneira espetacular recorrendo a diversas digressões ao passado daquelas pessoas para explicar suas personalidades, quase como que tentando dar-lhes uma razão própria, excluindo-as de qualquer julgamento moral. Ele faz esse exame imparcialmente, flertando com o determinismo. Escreve desculpando suas desventuras a fim de corroborar o escopo de sua teoria, para nos mostrar algo que os filósofos existencialistas chamam de condição humana. Faz questão de demonstrar os motivos internos que levam seus personagens a agir de determinada maneira, como que para eximi-los de julgamento quando interpretados de um ponto de vista externo, cuja pressão ele faz questão de esclarecer, o que é mais importante. 
Sua maestria em descrever humanamente essas duas perspectivas acaba levando o leitor a se identificar com as fraquezas dos seus personagens, que são também as nossas fraquezas.

Milan Kundera começa mostrando uma dessas histórias possíveis na vida de cada ser humano, que é inerente a cada um de nós: a visão que temos a partir de dentro. Nela, somos o centro das atenções, e conferimos a nós mesmos um centro de significância e desempenhamos o papel principal. Temos uma ideia exata de quem somos e uma certeza de importância imanente. Há metas, sonhos, memórias de uma história de vida linear que define nossa identidade e que são bases para nossas atitudes, dando-nos consistência. Enfim, somos os dignos personagens centrais da história. Pelo menos, da nossa história. Nela, temos a sensação de poder controlar o nosso destino, escrevendo novos capítulos dia após dia.
Mas essa é uma noção limitada e apenas uma parte incompleta do enredo.

Um bom exemplo que ilustra a limitação dessa visão interna e suas consequências é a ideia da importância do homem como o centro da Criação, que inspirou grandes pensadores a interpretar o mundo à sua volta de acordo com esse entendimento. Por conta disso, acreditavam que a Terra, lar do homem, era o centro do universo, com os planetas girando ao seu redor com uma coorte estelar a lhes fazer a honra nessa dança. O homem era o centro do universo. Do nosso ponto de vista, de fato, parecia que o sol, a lua e as estrelas giravam em torno de nós, afinal, descreviam seus circuitos de leste a oeste todos os dias e noites, o que levou à hipótese geocêntrica, aceita pela maioria durante muitos séculos. Essa interpretação foi muito bem recebida pelos religiosos. Outros pensadores (os heliocêntricos Johannes Kepler e Galileu Galilei, apenas para citar alguns dos mais famosos) que começaram a perceber que algo estava errado nessa interpretação - pois o fato de ser ou não o homem o centro de alguma coisa era irrelevante diante da verdade - foram perseguidos pelos geocentristas e, como não podia deixar de ser, pela Igreja, que durante muito tempo exerceu poderes de Estado. Foi determinado que a visão deles (o heliocentrismo, a teoria da terra e os planetas girando em torno do sol) era uma heresia, porque tirava o homem do centro da Criação. Mais tarde, não sem algumas baixas (falando modestamente), provou-se que a visão heliocêntrica estava correta. Não éramos mais o centro de um universo no qual os astros e toda a Criação desfilavam ao nosso redor. Tudo é muito, muito mais complexo e grandioso do que isso, como sabemos... Nossa mítica importância começou a declinar à medida em que passamos a conhecer melhor o universo que nos cerca.
Um ponto de vista interno e limitado pode colidir desastrosamente com a visão de fora, mais abrangente e realista (e, como descrevi acima, pode ser exatamente o oposto do que se pensa).

Millan Kundera também trata seus personagens a partir dessa outra história possível: a visão do lado de fora. O escritor e filósofo Mark Rowlands, Autor do livro "Scifi=Scifilo", descreve esse outro aspecto da seguinte forma:'(…) O efeito da segunda história, aquela contada do lado de fora, parece uma drástica realocação do nosso papel na trama. Longe de sermos o personagem principal da história, estamos reduzidos a um figuração. A história do lado de dentro gira ao nosso redor, mas na outra história cada um de nós é apenas um simples personagem em meio a muitos outros, um personagem cuja entrada em cena é determinada por outras pessoas e que não tem nenhum controle real sobre a hora da sua saída do palco. As coisas que impulsionam nossas vidas, as coisas que queremos, nossos planos, projetos e metas - aquilo que podemos chamar de nossa motivação - são o resultado de forças que não controlamos. Aparentemente, nosso papel foi escrito por outra pessoa. Temos pouco controle sobre o seu conteúdo e não temos a menor ideia de qual é o seu sentido.” Ele continua, de forma nem um pouco animadora: “...Além disso, somos individualmente o produto de forças que não escolhemos e que mal compreendemos. Não escolhemos nossos pais nem a época em que nascemos, e assim recebemos uma determinada herança genética sobre a qual não temos controle algum, mas que, até um ponto significante, tem controle sobre nós. Essa herança determina, em parte, as doenças a que somos suscetíveis e os limites de nossas capacidades intelectuais, atléticas e morais. Talvez não totalmente, mas o suficiente. Nascemos num ambiente que vai preencher o pouco espaço que sobra do que foi determinado geneticamente, um ambiente que, novamente, não escolhemos e sobre o qual mal temos controle, pelo menos durante nossos anos de formação. A maneira como somos e aquilo que fazemos são resultados de nossos genes e nosso ambiente, que, juntos, exercem em nós uma influência que compreendemos de forma bastante nebulosa. Era isso que os filósofos existencialistas, como Jean-Paul Sartre, por exemplo, queriam dizer quando afirmavam que somos jogados no mundo.”

Retornando ao meu exemplo, acrescentaria, para engrossar o caldo da nossa insignificância na segunda história, que vivemos num planeta com uma população de quase 8 bilhões de habitantes, que gira em torno de uma estrela que orbita uma galáxia onde existe bilhões de estrelas cercadas por seu próprios planetas. A nossa galáxia é apenas mais uma em meio a um universo que comporta bilhões de outras galáxias que também possuem seus bilhões de estrelas com seus respectivos planetas. Poderia citar ainda a teoria do multiverso, ou seja, a possibilidade da existência de outros universos independentes do nosso. Mas já deu pra entender onde quero chegar. Com essa pequena concepção do que existe lá fora fica meio dificil aceitar que Terra é o centro do Universo e que o homem é o centro da criação (bom, se você quiser, ainda pode admitir isso, afinal, nenhum alienígena desembarcou por aqui para dar um alô até agora).

O problema que quero mostrar aqui é aquele que encontramos quando tentamos conciliar as duas histórias, essas duas visões, a interna e a externa. Enquanto internamente somos o centro das atenções e de significado, do lado de fora não podemos ser nada disso absolutamente. O contrário também é verdadeiro: enquanto por dentro alguém pode se sentir um 'nada', quem o vê de fora pode encontrar nele um 'tudo'. Existe uma incompatibilidade aqui e um problema filosófico de duas versões da mesma história que deveriam ser verdadeiras mas não são. Alguém tem que estar com a verdade, ou então as duas versões combinadas deveriam corresponder a verdade. Mas por serem incompatíveis, não podem. Quando ambas são consideradas, uma história contradiz a outra. Algo como querer e não poder ou que deveria ser mas não pode. Esse paradoxo é chamado de condição humana. O que dá muito no que refletir e existem inúmeros problemas que resultam daí que são um apetitoso caldo filosófico.

Não é sem razão que o filósofo existencialista Martin Heidegger, disse certa vez, “o homem é o ser cujo ser é uma questão para si”.

Essa é apenas uma das muitas reflexões que fiz da leitura de “A Insustentável Leveza do Ser”. Encontrei ainda paralelos com o filme “La Dolce Vita” de Federico Fellini, que também discorre de maneira ainda mais crua a natureza dessas duas versões da mesma história, que corroboram o conceito de 'deveria ser mas não pode'. Uma amostra de como a leveza pode ser insustentável, pois é leve quando considerada de uma perspectiva externa, mas pode ser um peso do ponto de vista interno... 
Mas chega de divagações por hora.

domingo, 17 de julho de 2011

Carros 2

Os famosos personagens motorizados estão de volta na nova animação da Pixar, Carros 2. Seu lançamento se dá cinco anos após o seu antecessor de 2006. O roteiro acompanha essa cronologia mas muda a receita e envolve o público numa aventura de muita ação e mistério.
Há um certo estranhamento logo na abertura, onde acompanhamos um novo personagem, o espião Finn McMíssil na iminência de uma grande descoberta num complexo de estações petrolíferas em meio a um mar tempestuoso e turbulento. Nesse instante, ele é descoberto pelos vilões e protagoniza uma fuga espetacular no melhor estilo James Bond. Aliás, esse estilo de filmes de espionagem é que vai dar o tom da narrativa.

Após a lograda tentativa de eliminar o agente e uma sugestiva frase do líder dos capangas, chamado Professor Z, estamos de volta à velha Radiator Springs onde encontramos o reboque caipira Mate, alucinado, depois de perceber que seu melhor amigo, Relâmpago McQueen, está de volta à pequena cidade para gozar merecidas férias após a temporada de corridas. Na calorosa recepção reencontramos todos os personagens da primeira aventura e as cenas seguintes relembram episódios hilários da história anterior, sendo muito mais divertidas para quem assistiu o primeiro filme. Há inclusive uma menção honrosa ao Hudson Hornet, o velho 'Doc', corredor aposentado e mentor no primeiro longa.

Mas não será agora que Relâmpago MacQueen gozará de descanso. Em uma sequência hilária ele acaba aceitando o desafio de disputar o Grand Prix Mundial, cujo prêmio será competido por campeões do mundo todo, os carros mais velozes do mundo. O campeonato é patrocinado pelo magnata Miles Eixodaroda para comprovar a eficácia de seu novo combustível, o Allinol, ecologicamente correto e que susbstituirá os combustíveis derivados do petróleo. Todos o corredores irão utilizá-lo  nas corridas que se darão em vários países. Só que dessa vez McQueen resolve levar consigo seu amigo Mate. E é aqui que está a grande sacada dessa sequência. As constrangedoras trapalhadas do ingênuo Mate, que se tornam uma grande dor de cabeça para o Relâmpago, são divertidíssimas.

Assim, o principal protagonista de Carros 2 não é o Relâmpago McQueen, mas o velho reboque Mate. O que achei uma jogada arriscada da produção, por causa do apego da criançada ao herói turbinado - levei meu filho ao cinema para assitir e de vez em quando ele me perguntava: "Cadê o Relâmpago MacQueen?". Bem, ele é importante para a trama, mas fica em segundo plano. Mas os roteiristas (Ben Queen, John Lasseter, que também é o diretor, Brad Lewis e Dan Fogelman) sabem o que fazem.


No primeiro longa o argumento era a transformação do playboy autosuficiente e ambicioso em um personagem com sentimentos, que passou a reconhecer a necessidade da amizade e encontrou a beleza nas coisas simples da vida. Houve romance e uma clara transmissão de valores que acabaram resultando numa narrativa madura, mais voltada para o público adulto. O arco da história de McQuenn era uma reflexão da própria vida pregressa do diretor John Lasseter como um workaholic que não dava devida atenção ao convívio familiar. 

A história aqui, não é de transformação, mas de confimação. Portanto, Carros 2 é mais descolado. Os valores morais estão lá também, mas não escancarados como no primeiro. A preocupação aqui é entreter de forma descompromissada a criançada. A escolha de Mate como personagem central é perfeita já que o próprio era responsável pelas sequências mais engraçadas do primeiro. Nessa aventura, todo o seu potencial é explorado. Principalmente a partir do momento em que ele se envolve acidentalmente na conspiração internacional e acaba sendo confundido com um agente secreto americano. Alías, a sequência que envolve Mate nesse imbróglio, que se dá num banheiro japonês enquanto ele está às voltas com uma parafernália eletrônica, é divertidíssima. Depois da confusão a gente acaba se perguntando quem é mais ingênuo, o caipira Mate ou os inteligentes agentes Finn McMíssil e a bela  Holley Caixadebrita que enxergam na sua carroceria enferrujada, no seu sotaque e no seu jeito, o disfarce perfeito de um agente veterano. Daí por diante a aventura de espionagem é uma verdadeira corrida - literalmente - para descobrir quem está por trás da sabotagem dos competidores e por quê.

A reprodução das cidades que dão cenário às corridas de rua e perseguições da película foram o principal desafio dessa sequência, em termos técnicos. A primeira versão de Carros foi ambientada em uma cidade fictícia do deserto estadunidense. Agora, a ação se dá nas ruas de Tóquio, Porto Corsa, na Itália e em Londres. Essa variedade de paisagens conhecidas provou-se um desafio para a equipe técnica que também foi responsável pela Paris da animação Ratatouille, de 2007. Cada prédio foi construído digitalmente pelo sofware CityEngine, planejado para construir ambientes urbanos em 3D, tornando Carros 2 a maior produção da Pixar em termos de cenários.

Carros 2 acerta na trama ágil e divertida, na escolha de Mate como personagem central e possui um apuro gráfico de encher os olhos! Os novos personagens estão bem introduzidos (o engraçado carro italiano de fórmula 1 Francesco, é o desafiante do McQueen da vez), os elementos que compõe a narrativa e as locações em outros países ampliam ainda mais o seu universo. Pena que não deu para assistir em 3D.

sábado, 25 de junho de 2011

Falling Skies

    Assisti ontem a nova teleserie Falling Skies, pela TNT. O começo foi interessante, embora estejam ali os ingredientes de outras obras da ficção pós-apocalíptica de invasão alienígena, já meio batidos. Os dois primeiros episódios localizam bem o espectador em meio à crise de um planeta Terra invadido por uma raça alienígena hostil, sem embromação. As motivações dos personagens, além do instinto de sobrevivencia, vão sendo mostradas aos poucos e, certamente, algumas subtramas que tem início aqui, ficarão mais evidentes nos próximos episódios. O que é de praxe, para manter o interesse. 

   Minha primeira impressão é que a estréia teve a intenção de impactar - com ótimos efeitos especiais para uma teleserie (Steven Spielberg é o produtor executivo) e muita ação  - por ser um tema já meio massificado, lembrando que o mercado cinematográfico trabalhou com o mesmo há pouco em Invasão do Mundo: A Batalha de L.A e Skyline, o primeiro a ser lançado e o segundo recentemente lançado em DVD aqui no Brasil, sem contar com a série V, da Warner. Considerando algumas diferenças desse último, o pano de fundo é o mesmo.
   Vale acompanhar a nova série na esperança de que fique mais interessante, com ênfase, espero, na tensão entre os protagonistas e vilões, caso contrário, se o roteiro basear-se apenas nos esforços da rebelião de encontrar um ponto fraco dos invasores para derrotá-los, ficaremos com mais um subproduto do gênero, com episódios de muita ação, cheio de clichês e pouca profundidade dramática. 

   Chamou-me a atenção o professor de História e guerrilheiro Tom Mason (sensatamente interpretado por Noah Wyle), com as suas teorias de guerrilha embasadas no seu conhecimento de estratégias de guerra históricos. Tom tem um de seus três filhos feito prisioneiro pelos invasores e alimenta a esperança de resgatá-lo.
   Em um dos diálogos com Tom, um dos protagonistas levanta uma questão acerca do design bípede dos invasores robóticos (foram mostradas duas classes de alienígenas, os skitters orgânicos com 6 pernas e os mechs, que são robôs de ataque).  Afinal, quando engenheiros humanos projetam robôs, eles o fazem obedecendo um layout semelhante ao do ser-humano, como que recriando um padrão físico coerente do próprio criador. No caso dos invasores, os criadores dos mechs não seguiram o mesmo princípio, possuindo eles 6 pernas por que projetaram robôs bípedes? A resposta pode estar relacionada a alguma surpresa a se revelar nos próximos episódios.

  O Canal TNT começou, no mês passado, a publicar um prelúdio para a série numa história em quadrinhos on line, como forma de promover o seu lançamento. Clique aqui e acompanhe o que já foi publicado.

  Semana que vem tem mais, veremos o que acontece...


domingo, 15 de maio de 2011

Enfim, fui assistir Thor, O Deus do Trovão

  Desde os tempos de criança Thor sempre foi um dos meus heróis preferidos. O cara andava metido em sua pomposa armadura de capa vermelha, munido de um martelo mágico chamado Mjolnir (que ninguém era capaz de empunhar a não ser ele ), invocava tempestades em seu auxílio e, de quebra, era um deus amigo dos mortais. Não podia deixar de admirá-lo. Havia toda aquela mitologia nórdica e aquela linguagem antiquada dos deuses e criaturas de nomes estranhos que não me intimidavam e, ao contrário, foram abrindo caminho para leituras posteriores que aumentaram demasiadamente meu interesse por literatura fantástica numa época onde eu só lia gibis.
  Quando soube que Thor seria adaptado para os cinemas recebi a notícia com expectativa maior do que a de qualquer outro super-herói que já tinha virado filme, da Marvel Comics ou da DC Comics. Após o gratificante resultado dos longas de Homem de Ferro e O Incrível Hulk, eu esperava o melhor de Thor, já que a própria Marvel Studios vem produzindo os filmes dos seus personagens - pelo menos daqueles cujos direitos não foram vendidos para outros estúdios - permitindo que os heróis atuem num mesmo universo, semelhante ao que acontece nos quadrinhos. Encontramos referências do Capitão América no Homem de Ferro 2, Tony Stark dá o ar de sua graça no Incrível Hulk e os agentes da SHIELD, a misteriosa organização que amarra os filmes, preparam a chegada para Os Vingadores (outra carta na manga da Marvel). O fato de se manter o mais fiel possível ao que os fãs acompanham nos quadrinhos e o roteiros bem amarrados dos filmes, que funcionam tão bem na telona quanto nas HQs (faltando só as onomatopeias), geram o sucesso de franquias com muita coisa para explorar. E o fantasioso universo de Thor, criado por Stan Lee, Larry Lieber e Jack Kirby em 1962, possui aventuras de proporções épicas.
  Não foi sem razão que fui para o cinema na maior expectativa. Nem fiz questão de assistir em 3D, porque a produção não foi capturada com essa tecnologia e só entrou nessa onda na pós-produção. Esse processo não gera bons resultados e ainda pode estragar bons momentos da película (muita gente reclamou do 3D distorcido em Fúria de Titãs e agradeceu a Warner Bros. por não converter o último Harry Porter para o formato).
  A narrativa começa mostrando o primeiro contado entre os asgardianos (que vivem em outra dimensão) e os seres-humanos que os tomaram por deuses, surgindo assim, a mitologia nórdica. Relata em seguida um conflito ancestral de Asgard contra o reino dos Gigantes de Gelo, que vai ser o estopim da trama. Depois, somos rapidamente apresentados ao príncipe Thor (Chris Hemsworth), um líder guerreiro, impulsivo e vaidoso. O que é uma preocupação para seu pai Odin (Anthony Hopkins), que percebe que seu filho preferido não possui os atributos necessários para precedê-lo no trono.


  Após a frustrada invasão do palácio feita pelos Gigantes de Gelo que tentavam roubar um artefato de poder, Thor é motivado por seu irmão Loki (Tom Hiddleston) a liderar um grupo de amigos guerreiros para confrontar o inimigo, desprezando as ordens de seu pai. A demonstração da arrogância de Thor resulta na maior pancadaria contra o exército dos Gigantes de Gelo , quebrando uma já tênue trégua entre os reinos. Aliás, essa sequência é para mim uma das melhores de todos os tempos. Por desobedecer seu pai Thor tem seus poderes revogados e é banido para Terra, onde é encontrado por um pequeno grupo de cientistas.

   Mas é aqui que o roteiro peca, pois fica sem profundidade. Não temos tempo de conhecer aquele grupo comandado pela doutora Jane Foster (Natalie Portman), o que faz os personagens ficarem meio deslocados e não permite que nos apeguemos a eles. Talvez por isso fica difícil engolir a transformação do herói em sua estada na Terra e o surgimento rápido de amor por Jane. Os diálogos também não ajudam muito e parecem 'amarradinhos' demais, chegando a incomodar. O mesmo acontece com o grupo de guerreiros amigos de Thor enquanto permanecem em Asgard e acompanham a traição e ascensão de Loki, o verdadeiro inimigo. Sobra pouco tempo para conhecê-los e por isso não existe espaço para dramatizações. Embora exista um momento emocionante: Quando Thor recebe seus poderes de volta empunhando o poderoso martelo Mjolnir.
  O duelo entre Thor e o Destruidor é bom e chega a entusiasmar mas podia ter sido bem melhor. Tudo acontece rápido demais e o final apoteótico não é tão impressionante como a primeira sequência de ação da película, que para mim, vale pelo o filme inteiro.
  No final, ficou a sensação de que faltou alguma coisa. Pareceu-me uma daquelas publicações de capa dura, encadernação e impressão luxuosas e arte impecável mas com um roteiro fraco. Não que devesse impressionar, ficou no nível do filmes já citados da Marvel Studios, mas não é o melhor. Valeu o ingresso e fica aqui a recomendação.
  A próxima aposta da Marvel é o filme Capitão América – O Primeiro Vingador, aguardado ansiosamente pelos fãs. Entra em circuito no dia 29 de julho aqui no Brasil.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

A ararinha e a coruja

  Foi com uma grande dose de emoção que entrei na sala exibição para assistir à animação Rio, de Carlos Saldanha. Não era exatamente uma euforia causada pela película em si. Segundo me informara, na primeira oportunidade de realizar um projeto próprio, o brasileiro que alcançou uma bela projeção hollywoodiana com a trilogia Era do Gelo, já possuía esse projeto em mente há algum tempo. Contudo, ele pareceu preferir mostrar o Brasil pelos padrões estereotipados formados nas décadas de 1940 e 1950. Segundo os americanos  vivemos num país exótico e colorido, do futebol, de abundantes peladas (com perdão dos trocadilhos), onde sempre é carnaval e a malandragem corre solta (quem não se lembra do papagaio Zé Carioca, personagem criado pelo Walt Disney, numa tentativa de promover uma política de boa vizinhança e ajudar a despejar os demais personagens por aqui).

  Apesar dessas facetas o filme é envolvente e consegue arrancar gargalhadas durante a agitada narrativa: Blu, uma ararinha azul criada desde filhote por uma mulher chamada Linda, em Minnesota, e considerada o último exemplar macho do mundo, é trazido ao Rio de Janeiro para procriar com Jada, uma fêmea meio selvagem, a fim dar continuidade à espécie. Lógico que algo sai errado e o casal acaba se metendo em monte de encrencas.

  Mas, como eu disse no início, minha alegria não era resultado de alguma expectativa com a animação, que na verdade, me surpreendeu. Eu estava agitado porque eu e minha esposa levávamos nosso pequeno filho de quase cinco anos para sua primeira sessão de cinema. Meio tardia para quem tem um pai cinéfilo, que aguardou ansiosamente o primeiro contato do filhão com a telona. Pode parecer bobagem, mas numa época de disseminação de mídia como a que vivemos hoje, onde qualquer pessoa pode acessar um lançamento simultaneamente (e até antecipadamente em alguns casos) sem precisar pagar a entrada de um cinema (afinal, a pirataria está em cada esquina), é comum achar que essa magia, o cheiro da pipoca, a textura do ingresso, a sala escura, o estofado, a projeção no telão e toda aquela experiência coletiva não impressionem mais. Afinal de contas, o que pode ser melhor do que um aconchegante sofá, o conforto do lar e ter de quebra o controle total da exibição de um filme? Respondo: Produções cinematográficas foram feitas para os cinemas e apenas ali a gente pode alcançar a real percepção e dimensão dessa arte.

  Ok. Após todo esse discurso posso dizer aliviado que meu filhão puxou o pai e saiu do cinema tão animado que parecia que ia decolar como uma ararinha azul. 

  Podem dizer o que quiser do filme do Saldanha, mas o que importa é que ele me conquistou quando me predispus assisti-lo no mesmo espírito do público para qual ele foi feito. O espírito de uma criança. Uma criança com quase 40 anos na verdade.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Sci-fi com consciência

    Avatar é o filme do ano! Acabei de retornar do cinema e confesso que ainda estou sob o efeito das impressionantes imagens da película. Um verdadeiro primor de beleza e detalhamento gráfico de realismo astronômico. O projeto despendeu cerca de 500 milhões de dólares em 10 anos envoltos de mistério e de alarde midiático, em grande parte causado pela tal tecnologia que viria inovar o conceito dos filmes 3D (o equipamento para dar vida ao mundo concebido por Cameron não existia). Mas valeu à pena esperar. Sim, James Cameron revolucionou o cinema 3D! Em nenhum momento de seus quase 162 minutos de exibição me pareceu estar assistindo a uma animação, mas a um live action.
   Os personagens humanos estão perfeitamente inseridos em um ecossistema construido de tecnologia digital e com alto grau de realismo em todos os seus mínimos detalhes. Os Na’Vi, a raça alienígena nativa do hostil planeta Pandora, são apresentados como arquétipos de culturas indígenas de todas as partes da Terra - que conhecemos e com os quais acabamos nos identificando rapidamente - e tão detalhadamente ricos de minúcias gráficas que podemos perceber os poros da pele deles transpirando. O planeta é alvo da ganância e ignorância dos seres humanos que estão interessados na valiosa substância chamada unobtainium. A aldeia dos Na´Vi fica localizada exatamente sobre uma abundante reserva do precioso objeto de cobiça, mas todas as tentativas 'amigáveis' de levar os nativos a abandonar o local são fracassadas. Como última alternativa a empresa responsável pela ação envia avatares – seres humanos com mentes temporáriamente transferidas para corpos de Na´Vi - para infiltração e investigação da aldeia e seus habitantes a fim de encontrar pontos vulneráveis. Mas o agente infiltrado acaba se envolvendo com os nativos tornando-se defensor da causa deles.


    O roteiro não oferece surpresas, valendo-se de uma fonte da qual outras obras, cinematográficas ou não, também já beberam – qualquer semelhança com o prodigioso Dança com Lobos, de Kevin Costner, não é mera coincidência. Amiúde, mesmo sendo presumível, a história recontada não diminui a força do espetáculo. Outro aspecto que chama a atenção e enriquece o roteiro é o seu aspecto místico que alude à hipótese Gaia, levando inevitavelmente o apelo da preservação ambiental. As referências estão todas lá. Em certo ponto do filme (espero que isso não soe como spoiler) o herói se prostra diante de uma árvore que, acredita-se, sintetiza uma espécie de força que conserva e conecta a alma do planeta às almas de todos os seres que o habitam, e solicita a sua ajuda para o desfecho da crise que está chegando ao ápice. Nesse momento, ele confessa o pecado de seus antepassados que destruíram todo o verde de seu planeta natal e estão prestes a fazer o mesmo com aquele lugar. Nesse instante, a narrativa toma o aspecto de um oráculo, mais uma vez apontando para um futuro sombrio onde a louca aventura humana esgotou os recursos do seu planeta de origem.
   Discurso ecologicamente emblemático e conveniente nestes tempos em que os grandes líderes mundiais  se reuniram no COP 15 e para a decepção geral, não chegaram a um acordo plausível de comprometimento para a redução da emissão dos gases que provocam o efeito estufa (leia-se dentre outros, principalmente, os EUA). Ou seja, continuarão a liderar a lista dos países que mais exploram danosamente os recursos naturais do planeta parecendo não se importar muito com isso.

   Agora, resta-me aguardar a estréia do já bastante alardeado - aqui e lá fora – Moon, de Duncan Jones, e a biografia romanceada do revolucionário Charles Darwin, narrada no filme Creation, que espero ansiosamente entrarem circuito por aqui. Enquanto isso, passo o tempo com a química bem humorada dos nerds da telesérie The Big Bang Theory, cujo DVD da primeira temporada acabei de receber de presente. Uma breve digressão.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Vida, maravilhosa vida!


  Achei genial o filme ‘O curioso caso de Benjamin Button’, dirigido por David Fincher. A história é baseada num conto escrito em 1922, por F. Scott Fitzgerald (1896-1940), sobre um sujeito "nascido em circunstâncias incomuns". Benjamin nasce velho, em estado degenerativo com catarata e artrite, num quadro médico próximo da morte. O recém-nascido é abandonado pelo desafortunado pai, ironicamente, na escadaria de um asilo, onde é encontrado e adotado por uma funcionária do lugar. Contrariando a expectativa de todos, a criança se recupera “milagrosamente” e convive quase despercebido entre os outros anciãos que vivem no asilo. Benjamin passa os primeiros anos da sua vida assistindo aos outros idosos como ele indo e vindo, enquanto se torna mais jovem e vigoroso a cada ano que passa, na contra mão do ciclo da vida. Ele perfaz uma história ao contrário no tempo, rejuvenescendo a cada aniversário, até se tornar novamente um bebê.

  Curiosamente, o que mais me chamou a atenção no filme não foi esse fato inusitado, nem os notáveis efeitos visuais, a maquiagem e a direção de arte, que lhe renderam 3 merecidos oscars - sem contar as brilhantes interpretações de Brad Pitt e Cate Blanchett. O que me encantou foi a narrativa do pitoresco personagem, registrada por ele mesmo num diário que é lido durante o filme. Através das memórias ali contidas sua jornada se descortina diante de nós. Tudo o que Benjamim nos conta, excluindo sua estranha doença – se é que podemos chamar assim – são acontecimentos corriqueiros de uma vida que poderia ser a minha ou a sua. Claro que o filme é poético e romanesco, e penso que a nossa vida deveria mesmo ser mais carregada de poesia e romance. Com efeito, o romance bem amarrado da narrativa gera certa expectativa de como tudo vai terminar devido o caso fora do comum de Benjamim. Na maior parte do tempo, porém, ele vê a vida e as pessoas passando diante de si sem maiores surpresas. O que torna sua narrativa tão especial é a forma como ele conta os acontecimentos - como a entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial - de uma perspectiva toda sua. Nesse aspecto, as pessoas que passam por sua vida se tornam curiosos coadjuvantes nas suas descrições; como o inesquecível sujeito que não perde uma oportunidade para contar como foi atingido 7 vezes por um raio. Mérito do roteirista Eric Roth, que assinou também o roteiro de Forrest Gump, outro famoso contador de histórias.

  Ao terminar de assistir a película, não pude deixar de refletir sobre como a nossa existência é de fato especial. Apesar de cada pessoa ser mais um no meio de uma população de quase 7 bilhões de habitantes espalhados pelo globo, de uma perspectiva individual nossa existência é exclusiva. Cada um de nós faz sua própria jornada. Acompanhamos o ciclo da vida com as mesmas necessidades, enfrentado os mesmos problemas e buscando mais ou menos as mesmas coisas. Não importa sob quais circunstâncias nascemos, “Vamos todos para a mesma direção. Apenas seguimos caminhos diferentes para chegar lá” – diz a mãe de Benjamim, em certo momento do filme. Mas ainda assim possuímos algo que nos difere uns dos outros, nossa identidade. O que nos confere uma história interna e pessoal desenvolvida a partir da forma como percebemos o mundo. A vida, contudo, parece indiferente à nossa percepção e mesmo contra todas as possibilidades continua a sua trajetória. Nossa existência, como a de Benjamim, é um milagre e cada novo dia de vida deve ser considerado uma benção, não importa a idade.