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domingo, 25 de outubro de 2009

O perigo que vem de cima

  Há alguns dias atrás a Universidade do Havaí fez um anúncio importante. Novos cálculos diminuíram as chances do asteróide Apophis se chocar com a Terra – 1 chance em 300 mil – e a data do possível encontro mudou para o ano 2068.


  O Apophis tem cerca de 250 metros e foi descoberto em 2004. Naquela época, os cálculos de sua órbita demonstraram 1 chance em 37 de ele atingir a Terra. A data fora estabelecida para o dia 13 de abril de 2029. Nesse dia, de fato ele passará a cerca de 30 mil km da superfície terrestre (o que é muito perto, considerando que os satélites de comunicação de órbita geoestacionários ficam a 36 mil km de altitude). Uma análise mais apurada foi feita algum tempo depois e as chances de impacto mudaram para 1 em 45 mil, dessa vez em 2036.

  Após revisões, a nova estatística anunciada que considera o possível desastre para 2068 também diminuiu as chances para 1 em 300 mil. Mas ela não é conclusiva, afinal de contas qualquer perturbação gravitacional na órbita do asteróide poderia contribuir para aumentar ou diminuir o risco de impacto.

  Somente nas últimas duas décadas os especialistas começaram a demonstrar maior preocupação com essas rochas à deriva no espaço. Apesar de a caça a asteróides ter sido uma atividade popular no século XIX – no final daquele século havia cerca de mil conhecidos -, no início do século XX poucos astrônomos queriam se dedicar à descoberta desses planetóides rochosos e estavam mais interessados em analisar o espaço profundo, repleto de novas galáxias e estruturas desconcertantes reveladas pelos avanços da astrofísica. Mesmo a descoberta dos asteróides do século anterior não obedeceu a um registro sistemático, o que levou os astrônomos que retomaram esse trabalho a rever as descobertas dos pioneiros, muitas vezes percebendo que uma descoberta recente na realidade era um objeto que já tinha sido localizado outrora.

  Foi na década de 1950 que o primeiro estudo sério sobre impactos catastróficos começou a ser desenvolvido pelo então geólogo Eugene Shoemaker. Naquela época a cratera do Meteoro, no Arizona, era considerada uma depressão causada por uma ação natural de explosões de vapor subterrâneo – nunca existiu tal coisa, mas era uma teoria aceita na época. Shoemacker acreditava que a cratera fora formada pelo impacto de um objeto do espaço. Essa idéia não era original, tendo sido considerada por outros antes dele. Mas junto com outros três colegas, Shoemacker começou uma pesquisa sobre o sistema solar interno utilizando o observatório de Palomar, na Califórnia, em busca de asteróides com trajetórias que pudessem cruzar com a órbita da Terra.


  No início da década de 1970, outro geólogo, Walter Alvarez, desenvolvia um trabalho de campo num desfiladeiro na cidade de Gubbio, na região montanhosa da Úmbria, quando analisou uma fina camada de argila com 6 centímetros de espessura que separava as camadas geológicas do Cretácio e do Terciário. Essa é a marca da época da extinção dos dinossauros, 65 milhões de anos atrás. O desaparecimento brusco dos dinossauros até então era um mistério aberto a teorias. O que chamou a atenção de Alvarez era o que poderia haver naquela fina camada de argila vermelha que pudesse lançar mais luz sobre a questão. Com a cooperação de um colega de seu pai, que trabalhava no Laboratório Lawrence Berkely, na Califórnia, ele obteve um resultado preciso da composição da amostra daquela argila, e ficaram impressionados com o que descobriram. A quantidade de irídio na amostra – mil vezes mais abundante no espaço do que na crosta terrestre - era mais de trezentas vezes além do nível normal. E mais: amostras da camada de argila do mesmo período provenientes de outros lugares - Dinamarca, Espanha, França, Nova Zelândia, Antártida – revelaram resultados semelhantes e com quantidades até mais abundantes de irídio.

  Finalmente, eles concluíram que somente um evento catastrófico causado pelo impacto de um corpo celeste poderia ter espalhado poeira com irídio naquelas proporções por todo o planeta. O cataclismo ocorrido explicaria a razão do desaparecimento repentino dos dinossauros.

  A idéia não foi aceita pela comunidade científica logo de início e era vista com desconfiança. O catastrofismo não era uma teoria corrente no início da década de 1980. Mesmo o famoso paleontólogo Stephen Jay Gould, duvidou. ‘Por que um objeto com apenas uns 10 quilômetros de largura causaria tanta destruição num planeta de quase 12 mil quilômetros?’, ele confessou mais tarde.

  Faltava aos três cientistas apenas uma coisa para comprovar sua teoria: encontrar o local de impacto. Algumas décadas antes, uma empresa petrolífera havia descoberto uma formação com 193 quilômetros de largura e 48 quilômetros de profundidade, em formato de anel, na península do Yucatán, em Chicxulub, a cerca de 950 quilômetros de Nova Orleans. Os geólogos da empresa pensaram que era resultado de ação vulcânica. Com a posse desses dados, em 1990, um dos pesquisadores que contribuía com o trabalho de Alvarez para a detecção do possível local de impacto rumou para a região e afirmou que aquela era a cratera que eles procuravam. Em 1991 foi comprovado, sem margem para dúvidas, que ele estava certo.

  Mas a prova de que pequenos objetos do espaço podem causar devastação global ocorreu mesmo em julho de 1994, quando os fragmentos do cometa Shoemacker-Levy 9 colidiram com o planeta Júpiter. O cometa foi descoberto por Eugene Shoemacker, sua esposa, Carolyn, e David Levy, parte do mesmo grupo que despertou a atenção da autoridade científica para o perigo de um impacto. A forte gravidade de Júpiter desintegrou o cometa - que fora capturado para o interior do sistema solar após ter sua órbita desequilibrada por algum outro objeto celeste - em 23 pedaços que seguiram em direção ao planeta.

  Júpiter é 11 vezes maior do que a Terra e a sua massa é trezentas vezes superior. O maior planeta do sistema solar é uma gigantesca bola de gás e embora sua superfície não seja sólida, talvez sua região central seja. Os astrônomos achavam que o impacto seria um fiasco, como publicado num artigo da revista Nature, na época. No dia 16 de julho, ocorreu a primeira colisão. Sua explosão criou uma bola de fogo gigantesca levantando uma coluna de detritos com mais de 3 mil quilômetros de altitude. Ao retornar ao planeta, os detritos criaram uma mancha negra com o tamanho equivalente a um terço do diâmetro da Terra. Os impactos que ocorreram nos dias seguintes atingiram a superfície repetindo o mesmo padrão. O Núcleo G, o maior deles – mais ou menos do tamanho de uma montanha pequena - atingiu o planeta liberando a incrível força de cerca de 6 milhões de megatons o que é 75 vezes superior a todas as armas nucleares existentes. Tudo isso foi registrado ‘ao vivo’ pelo telescópio espacial Hubble e pela sonda espacial Galileu, que viajava em direção a Júpiter durante o acontecimento.


  O espetáculo bastou para calar os críticos da teoria de Alvarez e conscientizou a comunidade científica de que o mesmo poderia, no passado, ter acontecido no planeta Terra. E ainda pode. Verbas foram liberadas para engrossar o caldo dos programas de pesquisa que descobrem e rastreiam asteróides e cometas, como a organização de Levantamento de Proteção Espacial (Spaceguard Survey) que conta com a colaboração de vários países.

  A massa total dos milhões de asteróides entre Marte e Júpiter é de aproximadamente metade da massa da Lua. Existem três asteróides realmente ‘grandes’, Ceres, Pallas e Vesta, com diâmetros de 913, 580 e 540 quilômetros de diâmetro, respectivamente. Cerca de uma dúzia de bólidos com mais de 200 quilômetros. Mais de 10 mil com mais de 100 quilômetros. Os menores são bem mais numerosos, com cerca de 750 mil com diâmetros acima de um quilômetro, e mais ou menos uns 28 milhões maiores que um campo de futebol que são especialmente difíceis de detectar.

  Eventos na escala do que causou a extinção dos dinossauros ou do impacto ocorrido em Júpiter são raríssimos, mas inevitáveis. A estimativa do estudo da Spaceguard Survey, em 1992, é que de 20% a 40% dos objetos celestes hoje considerados perigosos (com mais de um quilômetro de diâmetro) poderiam se chocar contra nosso planeta em algum tempo futuro.

  Como nos filmes de ficção "Impacto Profundo" e "Armageddon", resta saber o que poderemos fazer no caso da confirmação de impacto com um objeto dessa magnitude. Existem várias propostas de interceptação, se a descoberta for feita com anos de antecedência, como no caso do primeiro filme. Mas isso é assunto para outro post.

  No mês de julho deste ano o planeta júpiter foi novamente flagrado no exato momento em que era atingido por um asteróide ou cometa. Pelo menos para o gigante gasoso esses eventos não parecem ser tão incomuns.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Com a cabeça na lua

   Nas noites de Lua cheia, mesmo após os dias mais agitados gosto de ficar admirando o redondo astro no céu, muitas vezes do telhado de casa. A luz do luar cria um clima ideal para a meditação e induz em mim uma profunda reflexão da vida como um todo. Para as almas românticas é o despertar da inspiração e das explosões de amor.

  A primeira vez que mirei a Lua através das lentes de um telescópio foi mágico. As lágrimas correram dos meus olhos. Estava minguante. Era como se repentinamente o tempo tivesse estacionado por um instante, enquanto aquele imenso disco semi-iluminado seguia o seu curso silencioso, sem dar a mínima para mim. Eu podia ver as sombras dos vales e montanhas projetadas pela luz solar que banhava parte de sua superfície que empalidecia de estonteante beleza. Apesar de já ter visto dezenas de fotos das mais diversas distâncias do astro, nada se comparava àquela singular experiência. Era como se uma janela tivesse se aberto para o um horizonte de excelência e harmonia. Enquanto um misto de maravilha e contentamento tomava conta do meu ser, eu capturava aquele momento de transcendência que guardaria como uma das visões mais espetaculares que tivera chance de vivenciar.

  Desde tempos imemoriais, essa esfera selenita incita a imaginação da mente humana com fascínio e terror. Na ausência de explicações para o espetáculo noturno, os povos primitivos recorreram às historias extraordinárias gerando lendas e deuses que facilitavam a compreensão de tudo. Os deuses tinham poderes sobrenaturais e governavam os fenômenos da natureza, sendo capazes de alterar o seu equilíbrio. Os astros eram considerados entidades que governavam o dia e a noite. A Lua era a deusa ou deus que envolvia de mistérios o céu noturno. Há mais de 3.000 anos atrás, os Assírios e os povos do Sul da Arábia comemoravam o décimo quinto dia do terceiro mês de seus calendários primitivos – o dia da lua cheia no calendário lunar - como um dia especial ao deus-lua. Prestavam cultos e faziam oferendas. Já os egípcios, consideravam a Lua um ponto de parada da alma em sua jornada para o Céu.

   Os eclipses que ocorrem periodicamente deram lugar a todo o tipo de superstições e mitos que estavam normalmente associados a maus presságios. Quando o Sol e a Lua eram eclipsados, nossos antepassados interpretavam o fenômeno como se os astros tivessem sido abalados por forças opostas. A mente primitiva imaginava monstros malignos, dragões e serpentes que procuravam usurpar o trono dos deuses. Muitas culturas desenvolveram rituais que representavam o embate das forças do bem e do mal na expectativa de contribuir para a vitória de seus deuses e o retorno da ordem natural das coisas. Em alguns casos organizavam danças que eram executadas com grande algazarra, a fim de espantar o monstro que tentava devorar o astro. Na china, era hábito lançar flechas em direção aos eclipses e bater tambores com o mesmo fim. Chung Wang, quarto imperador da dinastia dos Hsai, condenou à morte os astrônomos Hsi e Ho porque não previram o eclipse do Sol de 22 de outubro de 2.137 a.C. – tamanha a idéia de importância desses fenômenos para o bem estar do império.

  Conta-se que Cristovão Colombo se utilizou das informações do livro do astrônomo judeu Abraham Ben Samuel para conseguir dos indígenas alimentos e água para sua viagem de retorno à Europa. Sabendo antecipadamente que um eclipse lunar ocorreria naquela noite ele se dirigiu aos nativos ameaçando apagar a Lua. Quando começou o eclipse, os índios viram que ele não estava brincando e começaram o trabalho.

  Nem sempre a Lua causava reverência e espanto. O sonho de viajar até o disco prateado já transitava há muito, nas mentes devaneadoras e aventureiras. A primeira descrição de uma jornada até a Lua data do século II. Nela, Luciano Samósata conta como uma violenta tempestade oceânica arremessa um navio tripulado à superfície lunar. Essa narrativa encontra-se no livro Histórias Verdadeiras. Obviamente, esse conto não tem nada de realista, e parece ter sido a intenção do autor fazer uma crítica a sociedade da época - nossos heróis se vêem em meio a um conflito entre os habitantes da Lua e os habitantes do Sol, conseguindo retornar ao nosso planeta apenas após uma trégua entre eles.

  Uma abordagem um pouco mais científica foi feita por Johannes Kepler (1571-1630), em 1593, quando se perguntava como os fenômenos celestes seriam percebidos por um observador que estivesse na superfície da Lua. Defensor da concepção heliocêntrica, que postulava a Terra e os demais planetas girando em torno do sol - simpatizantes desse conceito eram perseguidos pelos geocentristas - resolveu desenvolver um conto de ficção para disfarçar as idéias que exporia no livro. Dessa forma, imaginou que elas pudessem ser mais aceitáveis aos aristotélicos. Imbuído dessas considerações, ele escreveu “Sonnium”. O livro narra a aventura de Duracotos que, após ser expulso de casa por sua mãe, consegue um trabalho somo assistente do astrônomo dinamarquês Tycho-Brahe (1546-1601) onde apreende o conhecimento dos corpos celestes. Alguns anos depois, Duracotus volta para casa e conta tudo para sua genitora. Esta, por sua vez, conta-lhe que já sabia daquilo tudo, graças às revelações de uma entidade benéfica que ela chamava de “o demônio de Lavaria”. Por meio desse ente, eles são transportados para a Lua onde são instruídos sobre a astronomia e a biologia lunares. Através dessa fantasia, Kepler divulgava suas idéias heliocêntricas tentando não gerar polêmica.

  Sua prudência porém, não adiantou muito e após distribuir seu conto entre um pequeno número de pessoas influentes, um incidente lhe impediu de publicar o livro. A forte personalidade de sua mãe, Catarina Kepler, provocou diversas acusações caluniosas por parte dos vizinhos. Em 1620, ela se tornou réu do tribunal da inquisição acusada de praticar magia negra – em parte porque interpretaram seu livreto literalmente. Kepler a defende e, depois de 2 anos ela é libertada. Mas ele ficou conhecido como filho de feiticeira até a sua morte.

   Mas foi apenas entre 1865 e 1870, que a publicação de dois livros intitulados “Da Terra à Lua” e “Ao Redor da Lua” aproximaria a ficção de conquistar o nosso satelite à realidade. O autor era Júlio Verne que, com vários ingredientes, fazia as aventuras narradas em seus livros cientificamente palatáveis, descrevendo e antevendo maravilhas tecnológicas que surgiriam no século seguinte. Vários detalhes envolvidos na empreitada de suas estórias previu com riqueza de detalhes os passos que daria, um século mais tarde, o programa Apollo, da NASA (Agência Espacial Norte Americana).

  O sonho de pisar na Lua não era mais uma arroubo de fantasia e misticismo, mas uma possibilidade dentro dos limites da ciência e do conhecimento humano. Um sonho realizável, bastando apenas o desejo de alcançá-lo.