segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Mais resenhas no icultgen

Outras duas resenhas que escrevi foram publicadas no site icultgen. Agradeço mais uma vez aos desenvolvedores do site a oportunidade, bem como os livros que me enviaram.
Para acessar as resenhas no site, clique nas imagens abaixo:


Teoria pouco convincente


Ao ver, numa livraria, a capa do livro O Sinal - O Santo Sudário e o Segredo da Ressurreição, de Thomas de Wesselow, devo dizer que o título me chamou a atenção de imediato. Logo minha ponta de interesse foi solapada ao imaginar que a obra provavelmente devia ser fruto de mais um fanático religioso ou aspirante de teorias absurdas sobre o controverso Sudário de Turim. Certamente, eu passaria muito longe desse livro, não fosse o preço mais que convidativo de uma recente promoção na Submarino e uma breve pesquisa sobre o seu autor e o escopo da obra. Para a minha surpresa, Wesselow não é um religioso mas um historiador de arte. Eliminei a primeira razão para não adquirir o livro, citada acima - capaz de desviar o meu interesse. Agora faltava descobrir se a minha segunda razão tinha fundamento ou se o autor apresentaria algum argumento verdadeiramente fenomenal para fazer valer o subtítulo pretencioso.

Okay. Dei uma chance ao livro e encarei suas quase 400 páginas com curiosidade.
O Sudário de Turim foi desacreditado pela comunidade científica após ter sido exposto a uma série de exames empíricos. Para muitos, trata-se de uma pintura engenhosamente produzida entre os séculos XIII e XIV - essa última, época oficial de sua primeira aparição pública em Troyes, pequeno povoado na França . O pano, contudo, é um artefato inacreditável. Nele, nota-se nitidamente, à distância de uns 2 metros, várias manchas amareladas e difusas que, descolorindo o linho, formam a imagem fantasmagórica de um homem nu - frente e costas. Sua posição, de recém sepultado, é anatomicamente surpreendente. Mas o que ressalta antes de mais nada a surrada peça são as manchas vermelhas que se fazem ostensivas nas mãos e braços, pés, cabeça, costas e uma estranha mancha do lado direito o peito. Mãos e pés parecem perfurados. As marcas nas costas sugerem dilaceramento da pele. Chibatadas. Sinais que lembram imediatamente uma das práticas da pena capital romana infligidas a criminosos e inimigos do Império, há 2.000 anos atrás, a  crucificação. Ainda que não historicamente, o único personagem conhecido que corresponde exatamente as características de flagelo da impressão do Sudário é Jesus. O judeu que teria sido coroado com uma coroa de espinhos, morto crucificado, perfurado no lado por uma lança romana e ressuscitado, dando início ao maior movimento religioso e cultural da história da humanidade.
Era considerado uma fraude desde o século XIV, após o resultado de investigações a pedido do bispo de Troyes. Exibido publicamente na recém inaugurada igreja de Lirey, foi devolvido para a família de Godofredo I,  detentora do pano e que o considerava autêntico.
De lá pra cá, a mortalha quase foi perdida num incêndio na Capela de Chambéry, em 1532. Foi salva por pouco. Apesar dos danos sofridos, a imagem não foi comprometida e as freiras do lugar lhe fizeram remendos e puseram um forro novo.

Em uma de suas raríssimas exposições públicas, foi fotografado pela primeira vez por Secondo Pia, em 1898. Enquanto revelava o trabalho em seu laboratório, ficou impressionado com rosto que surgia dos negativos. A imagem em negativo do Sudário revelava, diante de seus olhos, uma impressão que ninguém tinha visto até então. Estopim para novas pesquisas e teorias, a velha conclusão de que o tecido não passava de uma falsificação da Idade Média foi abalada pela inacreditável revelação e outras descobertas que atravessaram o século XX. Especialmente a década de 1970. Nenhuma delas contundentes. As tentativas de ligar o Sudário ao século I e, principalmente, a figura de Cristo, resultavam sempre em ambiguidades - embora o respaldo arqueológico indicasse que o linho pudesse provir da Palestina e os padrões de tessitura correspondessem àquela cultura. Em 1988, porém, pedaços do tecido foram expostos ao teste de carbono-14 e a comunidade científica pôs um fim à discussão. Os testes comprovaram que o linho foi produzido entre os séculos XIII e XIV. O resultado anacrônico abalou a comunidade de pesquisadores defensora da autenticidade do Sudário.

Thomas de Wesselow nos apresenta, inicialmente, um mistério. O mistério da Páscoa ou da Ressurreição de Cristo. A base da pregação do cristianismo, movimento que cresceu surpreendentemente nos primeiros séculos. O capítulo introdutório de O Sinal narra esses acontecimentos segundo os evangelhos, o testemunho de Paulo, o livro dos Atos dos Apóstolos e as poucas menções de historiadores da época.

Unido ao coro dos que não concordam com o resultado da datação por carbono-14, o autor passa então a se valer da pesquisa dos sindonologistas que tiveram contato com o Sudário e com as evidências arqueológicas que remontam a possibilidade de origem no século I. Discorre sobre a impressionante impressão do homem do Sudário e as várias teorias e recriações da fraude, com resultados sempre aquém do original,  a fim de atestar a impossibilidade de engenhosidade humana. Finalmente, parte para diversas suposições de impressão natural causadas por emanações corporais. Nesse ponto, o livro contém um apanhado de informações preciosas que seriam bem mais interessantes caso não estivessem dispostas para comprovar a autenticidade do Sudário com o fim de promover a sua ambiciosa teoria sobre a Ressurreição.

E é aqui que seu livro atesta minha segunda impressão inicial.

A segunda metade da obra é uma pretensão equivocada para explicar racionalmente a origem do cristianismo e o sucesso de sua rápida ascensão - obviamente ligado ao seu cerne, a inexplicável Ressureição de Jesus. Wesselow sugere, categoricamente, que o Cristo ressuscitado não pode ser outra coisa senão o próprio Sudário. Nessa tentativa ele reinterpreta algumas passagens dos evangelhos e do Novo Testamento sempre se utilizando do texto grego original. Encaixa, de maneira nem sempre convincente, o Sudário nas situações que julga embasadas em testemunho histórico, mas distorcidos pelo fato dos evangelhos resultarem de tradição oral, sendo registros não muito precisos e geralmente ambíguos. Cita os evangelhos apócrifos. Procura explicar a diferentes narrativas sobre a descoberta do túmulo vazio - surpreendentemente sustenta que o túmulo não estava nada vazio, para validar suas hipóteses - e elimina os testemunhos que classifica como complementos fantasiosos para tentar explicar e dar forma física ao Jesus Ressurreto (como a aparição de Jesus a duas testemunhas no caminho de Emaús). O resultado é uma interpretação forçada que se reconhece como uma visão racional e viável da origem do Cristianismo.

Não me convenceu.

Para validar sua teoria, Thomas de Wesselow se torna extremamente repetitivo, deixando a agradável exposição da primeira parte do livro dar lugar a uma série de pressupostos que reforçam seu argumento, já duvidoso desde o instante em que detalha a maneira como os apóstolos teriam interpretado a impressão na mortalha de Jesus. O início dessa exposição nos é apresentada como um insight repentino seu, uma ideia exclusiva - o que talvez não seja - que resultou nos cinco anos de pesquisa sobre o material que gerou o livro e cujas respostas entram para a já enorme onda de especulações sobre o Sudário.

Genuíno ou não, apesar de tudo, o Sudário de Turim é uma peça, no mínimo, desconcertante.  E, penso, pode sim ter sido o tecido que envolveu Jesus no sepulcro quando, por conta da aproximação da Páscoa, não foi possível finalizar o ritual de sepultamento, ficando esse para ser concluído posteriormente. Na tentativa de identificar o pano como a mortalha que teria envolvido Jesus, a pesquisa do autor é abrangente e bastante esclarecedora, atestando ou contestando essa possibilidade. O livro seria melhor se ficasse apenas nisso.

O Sinal - O santo Sudário e a Ressurreição de Cristo
Thomas de Wesselow
512 páginas
Editora Paralela

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

O risível

Vale a intenção?
Uma ajuda, meio que a esmo, com o risco de se expor ao ridículo. Ocorre-me que uma pessoa deseja ser considerada, reconhecida, lembrada, ainda que sem a consciência dessa pretensão, que somente chega com a consequência dessa atitude desinteressada. Seria a manifestação sutil de garantir a própria imortalidade? Creio que sim. Se ao menos a intenção for útil, alcançou seu objetivo, tomam-se os louros. Ponto para o ego. Se não, no caso da frustração, do alvo errado, daquela tentativa de surpreender alguém, mas que se dá absolutamente fora de certo contexto (o da coveniência, por exemplo), veste-se a capa do ridículo - bem mais ostensiva e duradoura que os louros.

O risível exaure, mingua e torna distante qualquer glória - de qualquer ato, por mais bem intencionado que seja. A sua lembrança depende da força que terá, da constância dessa boa intenção descabida, que pode ser, mais do que hábito, um vício. Um desejo de reconhecimento enrustido - por causa da insegurança, talvez -, mas cuja transcendência temporal, além de resultar numa existência medíocre, pode acabar numa imortalidade risível no mundo dos homens.

domingo, 2 de setembro de 2012

Kiki de Montparnasse

Justamente por ler bastante sobra pouco tempo para escrever a respeito, e sempre há muito o que dividir sobre as descobertas aventurescas de tais leituras. A graphic novel Kiki de Montparnasse, com desenhos de Catel Muller e cenários de José Louis Bocquet é uma boa dica para quem deseja apreciar um ótimo trabalho de pesquisa aliado a um traço competente que retrata a belle époque dos dandys e da incipiente emancipação do "bello sexo" - dos "almofadinhas" e das "melindrosas" como eram chamados aqui no Brasil, nos "anos loucos" da década de 1920 -, expesso no mesmo estilo das charges da época.

A história acompanha a icônica e polêmica Alice Ernestine Prin, conhecida pelo nome de Kiki - como passou a ser chamada pelo pintor polonês Maurice Mendjisky. Ela também será a musa de outros pintores e artistas da época: Fujita Tsuguharu, Man Ray, Moïse Kisling, e outros. Como musa e companheira de Man Ray - que alcançou a glória como pintor e começou a fazer cinema - foi atriz de seus primeiros experimentos cinematográficos. Kiki polemizou a sua geração com o seu jeito atrevido e sem pudores - audaz defensora da liberdade de expressão, às vezes se excedia. Ela cantava e dançava nos clubes noturnos de Montparnasse, e as letras de suas canções tinham teor normalmente atrevido. Por isso, fora do círculo parisiense, ela era refutada como prostituta, e para a sua família interiorana, uma ovelha negra. As cartas que ela escrevia para a avó - confidente, e a verdadeira responsável por sua criação, pois a mãe se ausentara desde a infância - nunca chegavam ao seu destino, interceptadas pela família.


Influenciada pelo amador de artes Henri-Pierre Roché, Kiki de Montparnasse também dedicou-se à pintura expondo suas obras na galeria Bernheim, em 1930. Um ano antes ela começou a publicar o seu diário de memórias, e nesse mesmo ano, num baile de gala, foi reconhecida como a Rainha de Montparnasse. Algum tempo mais tarde, casou-se com um acordeonista, mas separou-se anos depois, não conseguindo controlar os seus impulsos extravagantes.
Um insólito gato preto, pintado por Kiki no famoso quadro onde retrata a sua família, parece enunciar o agouro que, para os seus parentes, devia ser a sua vida. Com a chegada da guerra muitas coisas mudaram e alguns de seus influentes amigos buscaram refúgio em outros paises para fugir do conflito, ou foram exilados.

Em consequência dos abusos da bebida e dos entorpecentes ela acabou adquirindo hidropsia, que a tornou inchada e quase irreconhecível, chegando ao ponto de perder a voz e viver da generosidade de seus amigos. Aquela que fora a musa de tantos artistas, que inspirou tantos quadros e roubou tantos suspiros, morreu em 1953, em Paris, contando com a presença de apenas alguns amigos no momento do seu enterro.


Em pleno início do século XX, foi uma figura polêmica, que viveu um período no qual o movimento feminista enfrentava inúmeras barreiras para elevar a mulher à instâncias monopolizadas pelo homem - a graphic novel registra um momento no qual Kiki e uma amiga estão em um bistrô recém-inaugurado, e são avisadas que não podem ser servidas por estarem sozinhas na mesa, sem presença masculina, o que gera uma reação escandalosa da protagonista - onde Kiki chama a atenção de Man Ray, pela primeira vez. 

Aqui no Brasil, foram justamente o cinema americano - "uma tentação do mundo moderno", expressão purista da época -, o movimento feminista estrangeiro e a moda ditada pela Europa (principalmente a parisiense) que levaram as brasileiras à transformações significativas. Surgiu uma nova mulher que deixou que a velha e ultrapassada figura da mulher doméstica, à parte do convívio social, fosse substituida aos poucos pelas ativistas em esferas intelectuais até então apenas ocupadas pelos homens.

Kiki de Montparnasse
Autores: Katell & Bocquet
413 págs 
Editora: Galera Record



domingo, 26 de agosto de 2012

Resenhas no icultgen

Já faz um bom tempo que não escrevo para este blog. Muito trabalho, cursos e, claro, leitura e cinema, minhas fontes de entretenimento e consumo, são os principais responsáveis pelo pouco tempo para escrever - o que é paradoxal, pois os últimos são o meu combustível diário. A escrita, uma atividade que gosto de exercer por prazer, toma um tempo maior pois requer uma forma de dedicação diferente na qual você não consome, apenas entrega. 

Revisitando o blog na semana passada, e relendo alguns posts, pensei que nada disso teria sido escrito não fosse a possibilidade de publicação e exposição para que meus colegas, amigos e outras pessoas tivessem acesso a assuntos que me fascinam - ao mesmo tempo em que serviam como registro de momentos mágicos da minha vida, que gosto de compartilhar. Apesar da falta de tempo e mesmo inspiração para escrever, de vez em quando, postava um texto novo, mas o período entre uma publicação e outra começou a se tornar cada vez maior. Um aspecto que me levou a abandonar um pouco o blog foi a minúscula frequência de visitas. Embora já fosse assim desde o começo - na verdade, nem a minha esposa passa por aqui - acabei perdendo um pouco o interesse de publicar conteúdo. Contudo, algumas pessoas curtiram alguns textos aqui postados, o que me abriu espaço para publicá-los em um site que sigo desde o ano passado, aproximadamente. Minhas últimas resenhas de livros podem ser conferidas no http://www.icultgen.com.br/  - que é um fascinante reduto de cultura pop, e a minha jornada pela literatura está sendo atualizada aqui.

Continuarei postando neste espaço, e para aqueles que passam por aqui de vez em quando, desculpo-me pela falta de conteúdo novo, o que tentarei corrigir.

Quem quiser conferir minhas primeiras resenhas no icultgeneration, siga os links abaixo: